Assim que o expediente começa, sua personalidade profissional assume. Sem problemas familiares, sem preocupações extraescritório. Ao final do dia, é o trabalho que desaparece por completo da sua mente. Não é preciso pensar nas reuniões, metas e conflitos que deverão ser resolvidos no dia seguinte.
Fazer essa desassociação ainda não é possível – talvez nunca seja. A tecnologia e a medicina têm avançado, mas não a passos tão largos que nos permitam ter uma experiência como essa. Trata-se apenas da premissa da série Ruptura (da Apple TV), em que funcionários de uma empresa são submetidos a um procedimento que separa suas memórias e os transforma quase em duas pessoas diferentes.
Apesar das questões conflitantes exploradas na série, é um tanto quanto tentador pensar em deixar os problemas para trás, ser capaz de escolher o que poderá ocupar sua mente pelas próximas horas e traçar limites bem definidos sobre a vida pessoal e profissional. Mas, na prática, tudo é bem diferente.
Em média, excetuando-se as horas de sono, o trabalhador brasileiro passa no trabalho praticamente metade de seu tempo nos dias úteis (39 horas). Por isso, é mais do que natural que o ambiente de trabalho seja palco de tantos acontecimentos importantes – e também seja atravessado por uma série de acontecimentos que podem afetar os indivíduos física e psicologicamente.
“O trabalho é um fator central na vida das pessoas, não só por ser onde passa grande parte do tempo dedicado ou por ter uma função econômica, mas por ser considerado algo que molda seu lugar na sociedade”, explica Lucas Freire, psicólogo do trabalho, escritor e palestrante. No entanto, embora contribua para a autoestima e o bem-estar, pode levar a prejuízos à saúde mental. “O trabalho pode ser uma fonte de realização ou de sofrimento.”
O preço invisível da alta performance
Apenas em 2024, mais de 472 mil brasileiros precisaram se afastar temporariamente de seus empregos por questões de saúde mental, segundo o Ministério da Previdência Social (MPS). Isso corresponde a um aumento de 134% nos afastamentos ao longo dos últimos dois anos no país.
“Modelos de trabalho baseados em coerção, medo e controle comportamental aumentam significativamente os níveis de estresse. Essa situação é a porta de entrada para uma série de transtornos”, comenta o psicólogo. Entre eles, ansiedade, depressão e burnout são os mais comuns.
A criação de um ambiente tóxico não necessariamente é um ato consciente, mas um reflexo de como muitos profissionais foram ensinados a agir (leia mais sobre as diferenças geracionais na reportagem Ninguém quer mais trabalhar) e fruto de uma visão deturpada de como deve ser uma vida corporativa.
Carreiras construídas à base de gritos, ameaças e constante pressão têm um preço. “O cenário todo contribui para o adoecimento, não é um problema individual”, diz Freire. A cobrança pela alta performance e metas cada vez mais inatingíveis também é uma realidade dentro das empresas. A pressão da “meritocracia” e as falácias motivacionais agravam o problema e levam a uma valorização (ainda que inconsciente) de uma “cultura da exaustão”. A internet está repleta de coaches que incentivam uma cultura workaholic e romantizam o excesso de trabalho e a produtividade a qualquer custo.
Muito disso é construído por meio de jargões – “trabalhe enquanto eles dormem”, “mindset vitorioso”, “seu sucesso só depende de você” e tantos outros, que se reproduzem também nos livros de autoajuda corporativa que dominam as livrarias. Para quem está inserido nessa rotina de trabalho, o agravamento da saúde mental pode nem sempre ser tão perceptível. “As consequências não são só mascaradas como acentuadas. Vivemos em uma cultura de produtividade contínua que passa por uma celebração quase que doentia de ser produtivo o tempo inteiro”, avalia Freire.
Incertezas, solidão e precariedade
As incertezas do ambiente de trabalho contemporâneo também colaboram para outros tipos de angústias e preocupações. Segundo dados de 2024 do IBGE, 25,2% dos 101,3 milhões de trabalhadores no Brasil atuam por conta própria. Trata-se de um cenário que contribui para a precarização, seja pela incerteza quanto aos rendimentos futuros, seja pela falta de suporte dos direitos dos trabalhadores formais – como férias, 13º salário e licença de saúde.
O “trabalhador por conta própria” também pode estar mais propenso a não ter com quem dividir suas angústias e inquietações. Atualmente, uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Cenários de home office, embora possam trazer diversas vantagens para os trabalhadores, também podem ser um potencializador da solidão.
O ambiente de trabalho nada mais é do que um reflexo da sociedade, em que suas mazelas são amplificadas
Feridas além do escritório
O mundo corporativo é ainda mais hostil com as mulheres. O ambiente de trabalho nada mais é do que um reflexo da sociedade, em que suas mazelas são amplificadas. Em um país que ocupa a quinta posição no ranking de feminicídios do mundo, não é de estranhar que as mulheres também correspondam às maiores vítimas de assédio moral e sexual no trabalho – e fora dele também.
A pesquisa Trabalho sem Assédio 2025, realizada pela ThinkEva em parceria com o LinkedIn, revela que 57% dos entrevistados já viram ou passaram por alguma situação de assédio no trabalho (sexual ou moral). A violência vivida é permeada por sentimentos de raiva, humilhação e tristeza e tem impactos que vão além do escritório.
De acordo com o estudo, 42,9% relatam desânimo e cansaço e 34,1% passam a apresentar sintomas de ansiedade e depressão. Outras consequências são a queda da autoestima, dificuldade em confiar em outras pessoas, medo constante e diminuição da autoconfiança.
“Existe um avanço na ampliação da consciência das pessoas em casos de assédio, mas as empresas e as lideranças precisam trabalhar mais para dar um exemplo positivo de como agir. Precisamos ser mais proativos e menos reativos”, analisa Nana Lima, empreendedora social e cofundadora da Think Eva.
O medo de exposição ainda é uma barreira para as denúncias, levando a um sofrimento silencioso. Em casos de assédio, as estruturas das empresas, como sistemas de denúncia, grupos de apoio e RH, são usadas por apenas ⅓ das vítimas. A maior parte delas recorre a pessoas próximas (35,7% das vítimas de assédio sexual e 38,5% das que sofrem assédio moral), ou não tem sequer reação (21,2% e 21,5%, respectivamente).
Durante esse processo, 32,1% das pessoas enfrentam mudanças nas expectativas de carreira, 17,1% revelam afastamento de colegas e sensação de solidão e uma em cada seis mulheres resolve pedir demissão. “São traumas tão grandes e o ambiente a adoeceu de tal forma que, muitas vezes, a pessoa realmente não consegue mais retornar e trabalhar na mesma área”, comenta a profissional.
As lideranças podem ser o primeiro ponto de contato de um funcionário que sofreu uma violência. Por isso, Lima enfatiza que os protocolos de ação devem estar muito claros para não agravar a situação. “É preciso saber acolher, orientar, e o que fazer em uma situação como essa. Além disso, é importante garantir que o canal de denúncia exista e funcione de forma que o processo seja sigiloso, confidencial, e que tenha uma comissão específica para apurar e depois para deliberar.”
Retratos da sociedade
Para o psicólogo Lucas Freire, o papel das organizações começa por gerar um trabalho mais digno para todos, independentemente do nível hierárquico. “Vejo muitas companhias querendo dar saltos em determinados temas sem garantir o básico.”
Em sua visão, a desigualdade social se apresenta também na forma de um maior desrespeito para pessoas que ocupam cargos que exigem menor qualificação e para grupos sociais em situação de maior vulnerabilidade. Esse abismo se faz presente inclusive em diferentes setores de uma mesma empresa. “Enquanto você tem uma discussão sobre segurança psicológica na área administrativa de uma empresa, tem funcionário do operacional que não sabe utilizar o plano de saúde”, revela.
Outra situação que experienciou durante sua atuação foi a discussão de jornadas de trabalho; um grupo, formado por funcionários mais qualificados da administração, defendia importar o modelo 4×3 de Londres, mas não queria discutir a redução da escala 6×1 para os demais funcionários, de cargos operacionais. “Chega a ser distópico.”
Diferenças também podem ser percebidas no contexto de raça e classe entre as mulheres. Os dados da pesquisa da ThinkEva mostram que as mais pobres sentem maior insegurança do que as que pertencem a classes sociais mais altas (diferença de 15 pontos percentuais). Entre as que ficam mais inseguras, 24% ganham até 2 salários mínimos.
A classe social também influencia com que frequência o tema é discutido. As mulheres que mais falam sobre assédio são em sua maioria brancas, com formação superior ou pós-graduação e em níveis hierárquicos intermediários. Enquanto para mulheres brancas o sentimento que predomina em casos de assédio é o de injustiça, para mulheres negras representa culpa.
“Infelizmente, muitas situações ainda são vistas como mimimi no trabalho”, desabafa a empreendedora. Segundo ela, é como se algumas pessoas fossem definidas como a “norma” e qualquer pessoa que seja ou aja diferente daquilo parece estar questionando algo que não deveria. Tudo o que foge disso é minimizado. “Como aquilo não os afeta e ‘sempre foi feito assim’, é difícil se colocar no lugar do outro e entender a necessidade de debater e solucionar problemas.” Mas, para ela, não é possível cumprir metas de diversidade e equidade se não houver o entendimento de que as pessoas têm diferentes necessidades dentro do ambiente de trabalho.
“O Brasil é um país que precisa de soluções sistêmicas e não binárias. Não tem fórmula mágica”, enfatiza Freire. “Temos que aumentar o debate e a consciência sobre determinados assuntos para poder agir efetivamente dentro das empresas.”

Revista ESG Insights nº 3 – O mundo do trabalho
Trabalhar é pagar boletos. E o que mais? – Carta ao leitor
O futuro do trabalho – Em meio a mudanças e incertezas, o mercado e os trabalhadores se reinventam
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O que sobra do agora – A existência em pequenas brechas: quantos stories cabem em uma vida?
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A-Z das discriminações e preconceitos – Dicionário das práticas obtusas e persistentes
Humildade não paga conta – Uma conversa franca com Fred Albuquerque, porta-voz informal e senso crítico da Faria Lima

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