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Ninguém quer mais trabalhar

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Ninguém quer mais trabalharBárbara Vetos

A cada nova geração, a anterior reclama de que “ninguém quer mais trabalhar”. O alvo da vez é a geração Z, a mais nova a ingressar no mercado. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva e do QuestionPro (2024) constatou que 74% consideram que as novas gerações estão menos comprometidas com o mercado de trabalho.

Segundo dados do Glassdoor, os conflitos aparecem ainda no processo de recrutamento. Profissionais de RH afirmam que os candidatos da geração Z não se vestem adequadamente (58%), não fazem contato visual (57%), têm exigências salariais irracionais (42%), não se comunicam bem (39%) e não parecem muito interessados ou engajados (33%).

Mas, em aproximadamente cinco anos, as reclamações começarão a ser direcionadas à geração Alpha. E assim segue uma história que não é nova. Há poucos anos, as mesmas críticas eram usadas para adjetivar os millennials (ou geração Y). Em 2016, a escritora e roteirista Tati Bernardi, em sua coluna na Folha de S.Paulo, censurou a postura dos nascidos entre 1981 e 1996 no ambiente de trabalho: muitas reclamações, falta de compromisso e um comportamento quase desconexo com a realidade.

“Minhas duas estagiárias passavam boa parte do tempo pedindo mais tempo livre para pensar em planos mirabolantes para conseguir ainda mais tempo livre. Nos únicos 20 minutos por semana que elas trabalhavam, ficavam profundamente irritadas se eu discordasse delas”, descreveu no artigo. Os millennials foram chamados por ela de “mimmadium”. Uma definição que, por pouco, não acometeu a própria autora, que nasceu apenas dois anos antes da virada de gerações.

A convivência entre pessoas nascidas em diferentes épocas costuma ser base para uma série de conflitos dentro das empresas. O relatório Tendências de gestão de pessoas, do Ecossistema Great People & GPTW, mostra que 51,6% dos entrevistados afirmam ter dificuldade em lidar com as diferentes gerações e suas expectativas no mundo corporativo – especialmente com a geração Z, dos nascidos entre 1997 e 2010. “A crítica se repete porque é mais fácil culpar o jovem do que encarar o mundo que ele recebeu”, avalia Renato Meirelles, comunicólogo, escritor e presidente do Instituto Locomotiva.

De acordo com a mesma pesquisa Locomotiva/Question Pro, apenas quatro em cada dez trabalhadores estão totalmente satisfeitos com o trabalho no país. A satisfação é menor entre a geração Z (35%) e maior entre os boomers (61 anos e mais), com 47%. O estudo também mostra que millennials são a geração que mais valoriza o salário, reconhecimento profissional e plano de carreira. Já a geração Z valoriza a flexibilidade e o trabalho com propósito.

“O jovem não está fugindo do trabalho, mas de um trabalho que exige muito e devolve pouco, principalmente em tempo, qualidade de vida e perspectiva”, explica Meirelles. “Trabalho continua sendo importante, mas perde o direito de ocupar tudo.”

Recortes da geração Z

Por mais que existam realidades diversas, as críticas à geração Z tendem a colocar todos os jovens sob o mesmo julgamento. “Mas de que geração Z estamos falando? Daquela que nasceu e se criou nas favelas ou da que nasceu e se criou nos condomínios de alto padrão?”, questiona Fillipi Nascimento, doutor em sociologia e um dos autores do livro A loteria do nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico.

Um estudo feito pelo Instituto Proa mostra que mais de 75% dos jovens de periferia têm o desejo de seguir carreira no mercado formal. No entanto, não acreditam no trabalho como fonte de propósito, segundo a consultoria Santo Caos. “Não há exatamente rejeição à CLT, mas, para muitos jovens, esse modelo perdeu a credibilidade enquanto promessa de futuro”, explica Meirelles.

O que soa como desinteresse pelo trabalho é, de fato, desinteresse ou é cansaço, frustração e falta de perspectiva? “São jovens que passam meses e anos tentando acessar o mercado formal de trabalho, lidando com porta fechada o tempo todo, com trabalho precário e com informalidade”, analisa Nascimento.

Para ele, talvez a recusa não esteja direcionada ao trabalho em si, mas a esse modelo econômico que exige muito e dá muito pouco ou quase nada em troca. “Falar da geração Z sem considerar todos esses aspectos é simplificar uma realidade que é bem mais complexa, dura e multifacetada.”

Futuro nebuloso

O cenário incerto se reflete em vários âmbitos. Um estudo da agência de relatórios de crédito TransUnion revela que jovens na faixa dos 20 anos têm salários menores, mais dívidas e maiores taxas de inadimplência, se comparados aos que os millennials tinham na mesma época.

“A geração Z chega com custo de vida pressionando e ainda vive a sensação de que o estudo não garante, sozinho, a mobilidade que já garantiu para outras gerações”, diz o presidente do Instituto Locomotiva. Tudo isso também se reflete na forma como enxergam o trabalho. De acordo com uma pesquisa da Robert Walters, 72% dos jovens preferem avançar na carreira sem chegar a cargos de chefia. “As gerações mais velhas aprenderam a associar esforço com presença, hierarquia e paciência, e que aguentar calado é sinal de maturidade. A geração Z associa valor a autonomia, flexibilidade e sentido.”

Apesar de as empresas viverem essa situação conflituosa entre os valores de cada geração, 70% ainda não possuem ações para facilitar a interação entres os gestores nascidos em épocas distintas – e só 39% planejam dar início a iniciativas nesse sentido em breve, segundo a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham).

Para Meirelles, as divergências podem ser, na verdade, benéficas. “As gerações mais velhas podem aprender com as mais novas que saúde mental é parte do contrato de trabalho.” Enquanto isso, a geração Z pode aprender que carreira se constrói com tempo, repertório e constância. “E que crescer exige saber lidar com frustração, atravessar fases difíceis, aprender com o erro, negociar com gente diferente.”

Difícil no começo, difícil no final

Se eliminar a concorrência é o caminho para o sucesso, por que não levar essa premissa ao pé da letra? No filme coreano A única saída (2025), dirigido por Park Chan-wook, um premiado veterano da indústria papeleira perde um confortável cargo de gerente, depois de 25 anos de dedicação à companhia. Os meses que se seguem são de angústia, cortes de gastos na família e respostas negativas em entrevistas. Até que ele resolve eliminar – literalmente – todos os concorrentes para uma disputada vaga no setor.

Além de expor com humor ácido a crueldade de certos processos de seleção, a melancolia do ex-gerente Man-su coloca sob os holofotes outra questão: as dificuldades enfrentadas no trabalho pelas pessoas mais velhas – mesmo que “velhas” muitas vezes englobe até alguém na casa dos 40. Uma pesquisa do Infojob descobriu que 70,4% dos profissionais brasileiros com mais de 40 já se sentiram vítimas de preconceito etário durante processos seletivos. Um contrassenso para um país com uma população que envelhece rapidamente. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que, até 2040, 56% da força de trabalho será formada por pessoas com mais de 45 anos.

Lee Byung-hun interpreta o gerente desempregado Man-su no filme A única saída: etarismo fatal

Cada geração com seus problemas. Os Z debatem-se com o “dilema do biscoito” (vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?), ainda que essa referência à publicidade na TV só faça sentido aos mais velhos. Afinal, são eles sem experiência porque não têm oportunidades, ou sem oportunidades porque não têm experiência?

O preconceito contra os boomers e os X é de outra natureza: o mercado teme a desatualização tecnológica e uma suposta falta de agilidade dos veteranos. Ou seja, são muito velhos para conseguirem emprego, mas muito jovens para se aposentar.

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