Comprar um relógio de luxo costuma começar pela internet. O consumidor pesquisa a referência, compara preços e procura a melhor oportunidade em plataformas como Chrono24 e eBay.
O problema é que o preço anunciado nem sempre representa o valor real pelo qual aquela peça está sendo negociada. O anúncio pode estar antigo, desatualizado ou refletir apenas a expectativa do vendedor naquele momento.
Segundo Renan Bastos, fundador e CEO da RC Crown e especialista no mercado internacional de relógios de luxo, essa é uma das principais armadilhas para quem utiliza a internet como única referência antes de comprar.
O anúncio mais barato pode criar uma falsa sensação de oportunidade Imagine que um consumidor encontre determinado relógio anunciado por R$ 150 mil. Esse é o menor preço que ele encontrou nos principais sites de venda.
Mas esse raciocínio pode estar equivocado.
O anúncio de R$ 150 mil pode estar desatualizado e permanecer online há meses ou até anos, sem refletir a realidade atual do mercado. Se, naquele momento, relógios equivalentes estiverem sendo efetivamente negociados por aproximadamente R$ 110 mil, o consumidor terá pago cerca de R$ 30 mil acima do valor pelo qual poderia ter comprado a peça.
“Esse é um dos principais erros cometidos pelos consumidores. A pessoa acredita que, por ter comprado abaixo do anúncio mais barato que encontrou, fez um bom negócio. Mas o anúncio mais barato não é necessariamente o preço de mercado. Ele pode estar antigo e não representar mais o valor pelo qual aquela referência está sendo negociada”, explica Renan Bastos.
Nesse caso, o comprador pode descobrir o problema apenas quando tentar vender ou trocar o relógio. A perda pode parecer uma grande desvalorização, mas parte dessa diferença já existia no momento da compra.
O problema também pode acontecer no sentido contrário A distorção dos anúncios pode funcionar nos dois sentidos.
Imagine outro consumidor que encontre um Audemars Piguet, conhecido como AP, anunciado por R$ 200 mil. Ao pesquisar, ele acredita ter encontrado uma excelente oportunidade e decide comprar a peça.
No entanto, naquele momento, relógios equivalentes podem estar sendo negociados entre os dealers por aproximadamente R$ 250 mil. Quando o consumidor entra em contato com o anunciante, pode descobrir que a peça já foi vendida, que não está mais disponível ou que o preço foi alterado.
Isso acontece porque nem todo anúncio representa uma peça efetivamente disponível naquele valor. Em alguns casos, o vendedor vende o relógio e não atualiza imediatamente o anúncio. Em outros, ele não tinha a peça em estoque, não consegue recomprá-la pelo mesmo preço ou precisa pagar mais caro para encontrar outra unidade no mercado.
Isso não significa necessariamente que houve má-fé. Muitas vezes, o anúncio simplesmente deixou de refletir a realidade antes de ser removido ou atualizado.
“O problema pode aparecer para os dois lados. Em um caso, o anúncio está acima do que o mercado pratica e o consumidor compra caro acreditando que economizou. Em outro, o anúncio está abaixo, mas não existe disponibilidade real naquele valor. Quando tenta comprar, o consumidor descobre que aquela referência não era uma oportunidade executável”, explica Renan Bastos.
Na prática, sem informações atualizadas, o consumidor pode acabar descobrindo sempre o cenário menos favorável: quando tenta comprar pelo preço baixo, a peça não está disponível; quando compra comparando com um anúncio mais caro, paga acima do mercado.
Preço anunciado não é preço negociado O preço publicado na internet mostra quanto o vendedor gostaria de receber. Ele não revela necessariamente há quanto tempo a peça está anunciada, quantas propostas foram recebidas ou por qual valor o negócio realmente poderia ser fechado.
“Uma coisa é o preço que alguém colocou no anúncio. Outra é o valor pelo qual aquele relógio realmente troca de mãos. O consumidor precisa entender essa diferença antes de concluir que encontrou uma oportunidade”, afirma Renan Bastos.
Além disso, muitos anúncios continuam disponíveis mesmo depois que o mercado muda. A oferta, a demanda, a disponibilidade de determinada referência e o interesse dos compradores podem alterar significativamente os preços em poucos meses.
Por isso, um anúncio encontrado hoje pode representar uma realidade que já não existe. Da mesma forma, um anúncio com preço aparentemente baixo pode não ser uma oferta que o consumidor consiga efetivamente comprar.
Relógios aparentemente iguais podem ter valores diferentes Outro ponto importante é verificar se os relógios comparados são realmente equivalentes.
A mesma referência pode apresentar valores diferentes dependendo do ano de fabricação, condição, procedência, documentação, histórico de manutenção, configuração, acessórios e estado do conjunto.
“O comprador profissional não olha somente a referência. Ele analisa o ano, a condição, a procedência, a documentação, o histórico de manutenção e toda a configuração da peça. Dois relógios aparentemente iguais podem ter valores muito diferentes”, explica Renan Bastos.
Dessa forma, comparar apenas fotografias e preços publicados pode levar a uma avaliação incompleta. Um relógio anunciado por R$ 150 mil pode não ser comparável a outro negociado por R$ 110 mil. Da mesma forma, uma peça anunciada por R$ 200 mil pode não estar realmente disponível para compra naquele valor.
O prejuízo muitas vezes aparece na revenda Em muitos casos, o consumidor só percebe que utilizou uma referência equivocada quando tenta vender ou trocar o relógio.
Nesse momento, compradores profissionais consideram o preço praticado naquele período, a liquidez da referência e as características específicas da peça. O valor pago originalmente pelo consumidor não determina quanto o mercado estará disposto a pagar.
“É na hora de vender que muita gente se depara com a realidade. A pessoa acreditava que o relógio valia determinado valor porque essa foi a referência encontrada quando comprou. Depois descobre que o mercado estava negociando em outro patamar”, afirma Renan.
Se o relógio foi comprado por R$ 140 mil, mas peças equivalentes estão sendo negociadas por aproximadamente R$ 110 mil, o proprietário poderá enfrentar uma perda relevante ao tentar liquidar o ativo.
Por outro lado, o consumidor que acreditou poder comprar uma peça por R$ 200 mil também pode perder tempo e tomar decisões erradas ao perseguir uma oferta que já não existe.
Em um mercado no qual determinadas peças custam dezenas ou centenas de milhares de reais ou dólares, uma diferença de poucos pontos percentuais já pode representar uma perda significativa.
Segundo Renan Bastos, a falta de atualização e de clareza sobre os preços praticados é um dos principais problemas do mercado de relógios de luxo.
“Hoje existem milhares de preços disponíveis na internet, mas muitos deles não estão atualizados ou não representam uma negociação real. Um dos pontos que estamos trabalhando para resolver na RC Crown é justamente organizar essas informações e oferecer mais clareza sobre o que está realmente disponível no mercado, em que condições e por qual faixa de preço uma peça pode ser negociada de forma justa”, conclui.











