O Brasil pode deixar de faturar mais de US$ 100 milhões com exportações de carne bovina pela Cota Hilton se a União Europeia mantiver a suspensão das compras. O valor reúne a receita ameaçada no restante do ciclo 2026/27 e a projeção para 2027/28, segundo os números da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
A restrição começou em 3 de setembro e está relacionada às exigências do bloco sobre o controle do uso de antimicrobianos na produção animal. A Hilton permite a venda de cortes de alto padrão com tratamento tarifário diferenciado, desde que sejam atendidos requisitos adicionais de qualidade e rastreabilidade.
Além de comprometer embarques de frigoríficos, o bloqueio atinge pecuaristas que investiram para fornecer animais a esse mercado. Empresas que planejavam entrar na cota também tiveram que adiar os projetos.
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Mais de 2 mil toneladas ainda dependem da reabertura do mercado
O ano-cota começa em julho e termina em junho do ano seguinte. No ciclo atual, de julho de 2026 a junho de 2027, mais de US$ 22 milhões em vendas à União Europeia estão ameaçados pela suspensão.
Diante da perspectiva de fechamento do mercado, os exportadores anteciparam embarques. Entre julho e agosto, venderam 6.767 toneladas pela Hilton, aproximadamente 76% do volume brasileiro destinado ao bloco, conforme a Abiec.
A parcela para a União Europeia é de 8.951 toneladas. Descontados os embarques dos dois primeiros meses, restam 2.184 toneladas. A um preço de referência de US$ 11 mil por tonelada, esse saldo representa cerca de US$ 24 milhões em receita potencial.
A realização dessas vendas depende da retomada do acesso ao mercado europeu antes do encerramento do período.
Para 2027/28, o cenário mais desfavorável considera a impossibilidade de exportar durante todo o ano-cota. A conta apresentada usa aproximadamente 8,9 mil toneladas e preço médio de US$ 11 mil por tonelada, o que corresponde a US$ 97,9 milhões. Segundo a Abiec, os valores praticados na Hilton variam de US$ 10 mil a US$ 15 mil por tonelada.
Pecuaristas podem perder adicional pelo boi rastreado
Os produtores que prepararam animais para a Hilton fizeram investimentos para atender às exigências desse mercado. Segundo Bruno Cunha, gerente de exportação da Astra Foods, os frigoríficos pagavam cerca de 5% a mais pelo boi rastreado destinado à cota.
Com a suspensão, esse pagamento adicional fica ameaçado, embora os custos com identificação e certificação dos animais já tenham sido assumidos.
“O pecuarista é mais impactado do que a indústria, porque criou um boi para estar pronto em dois anos, fez um superinvestimento em rastreabilidade individual e certificação de terceira parte”, disse a diretora de Relações Internacionais da Abiec, Lhais Sparvoli.
A rastreabilidade permite acompanhar a origem e o histórico dos animais. Para quem organizou a criação com foco nesse comprador, a interrupção das vendas compromete a remuneração esperada pelo atendimento às exigências.
Frigorífico do Paraná adia projeto para entrar na Hilton
A Astra Foods, de Cruzeiro do Oeste, no Paraná, já exportava para a Europa e planejava investir na cria de bezerros para garantir o acompanhamento dos animais desde o nascimento.
Segundo Cunha, o projeto previa o abate de mil cabeças por ano. A intenção era começar com uma cota equivalente a um contêiner, de 24 toneladas, e ampliar a participação conforme as vendas crescessem.
“Íamos começar um programa neste ano dentro de uma fazenda parceira ou própria. À medida que as vendas crescessem, pediríamos mais cota. Por ora, não vamos mais fazer isso, não tem outro motivo [além de usar a cota Hilton].”
Além disso, o gerente afirmou que outras indústrias também se preparavam para disputar esse mercado.
“Com certeza, havia mais empresas neste mesmo processo, com produtores de bezerros parceiros”, disse.
No ciclo 2026/27, cinco empresas estavam credenciadas para exportar pela Hilton: JBS, MBRF, Minerva, Barra Mansa e Frigorífico Silva.
Concorrentes elevam preços enquanto o Brasil está de fora
Nesse cenário, exportadores argentinos e uruguaios têm aproveitado o bloqueio ao Brasil para aumentar os preços de cortes vendidos pela Hilton.
Segundo esse relato, o conjunto conhecido como rump loin, que reúne alcatra, contrafilé e filé, passou de US$ 23 mil para US$ 28 mil por tonelada. A diferença equivale a uma alta de aproximadamente 21,7%.
O Brasil dispõe de 10 mil toneladas anuais na divisão entre os dois destinos: 8.951 toneladas para a União Europeia e 1.049 toneladas para o Reino Unido. O mercado britânico segue aberto à carne brasileira.
O que é a Cota Hilton?
Criada em 1979, no contexto das negociações comerciais do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, o GATT, a Cota Hilton estabelece condições especiais para a importação de carne bovina de alto padrão.
Entre os cortes vendidos pelo Brasil estão filé mignon, contrafilé, entrecôte e alcatra.
A carne precisa cumprir requisitos sanitários, de qualidade e de rastreabilidade adicionais aos exigidos para o acesso ao mercado europeu. No perfil de produção ideal, os animais são alimentados a pasto, têm de 22 a 24 meses e até quatro dentes incisivos permanentes.
Além disso, os embarques são acompanhados de certificado de autenticidade emitido pelo país de origem.
A Hilton já oferecia tratamento tarifário diferenciado antes do acordo entre Mercosul e União Europeia, com cobrança de 20% sobre o valor da mercadoria. O pacto previu a eliminação dessa tarifa para os fornecedores do Mercosul, porém, não dispensou o cumprimento das exigências sanitárias de acesso ao bloco.
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