A alta da demanda por whey protein está mudando o mercado de lácteos no Brasil. O soro de leite, obtido durante a fabricação de queijos, ganhou importância comercial e passou a estimular novos investimentos em processamento.
Ao mesmo tempo, o país ainda depende das importações de ingredientes derivados do soro, principalmente o concentrado de proteína do soro de leite com 80% de proteína (WPC80) e o isolado de proteína do soro de leite, com pelo menos 90% de proteína (WPI).
Segundo levantamento da StoneX, o preço do WPC80 nos Estados Unidos quase triplicou entre o início de 2025 e agosto deste ano. A tonelada passou de cerca de US$ 10 mil para US$ 28 mil. No mesmo período, o WPI subiu 47% e chegou a US$ 32 mil por tonelada.
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No Brasil, o WPC80 importado chega a cerca de R$ 160 mil por tonelada, segundo a StoneX, considerando impostos e custos de importação. Além disso, cerca de 70% do WPC80 e do WPI consumidos no país são importados, de acordo com a reportagem.
Soro de leite ganha valor
A indústria atribui parte dessa pressão ao crescimento da procura por alimentos e bebidas com maior concentração de proteínas. Atualmente, o ingrediente aparece em barras, bebidas, snacks, chocolates e produtos de panificação, além dos suplementos.
Para Juliana Torres Santiago, analista de inteligência de mercado da StoneX, a combinação entre o aumento acelerado da demanda e uma oferta que não acompanhou esse ritmo pressionou os preços.
O Brasil, por sua vez, possui uma grande produção de leite. Em 2025, os laticínios adquiriram 27,51 bilhões de litros de leite cru, segundo o IBGE. O volume cresceu 8,5% em relação ao ano anterior.
Por isso, o desafio está também na capacidade de transformar o soro gerado pela fabricação de queijo em ingredientes proteicos de maior valor agregado.
“Há um descompasso entre o crescimento da demanda por proteína concentrada de soro e o crescimento da disponibilidade de soro como subproduto da produção de queijo”, afirma Marcel de Barros, CEO da Tirolez.
Segundo ele, essa diferença aumenta a pressão sobre o mercado e contribui para a alta dos preços dos ingredientes.
Impacto para os produtores de leite
Para os produtores de leite, o impacto ocorre principalmente por meio da cadeia. Como o soro passou a ter maior valor para os laticínios, as empresas podem ampliar a receita obtida com o leite processado ao transformar o subproduto em ingredientes de maior valor agregado.
No entanto, isso não significa aumento automático no preço pago ao produtor. A remuneração do leite depende também da oferta e da demanda, da qualidade da matéria-prima, dos custos industriais e das condições de negociação entre produtores e laticínios.
Empresas ampliam produção
Nesse cenário, a Tirolez já fornece soro para empresas que utilizam a matéria-prima na fabricação de produtos com whey. Além disso, a companhia adquiriu a planta do grupo Barbosa & Marques, em recuperação judicial, em Governador Valadares (MG).
A unidade pode processar e secar 480 mil litros de soro por dia. De acordo com Barros, a planta opera atualmente na capacidade máxima. A empresa arrenda a unidade desde 1º de julho, enquanto a aquisição definitiva depende do processo de recuperação judicial.
A Sooro Renner também amplia sua capacidade. A empresa produz cerca de 8 mil toneladas anuais de WPC80 e 2 mil toneladas de WPI. Agora, decidiu construir uma nova fábrica em Francisco Beltrão (PR).
O investimento supera R$ 1 bilhão. Além disso, a previsão é iniciar a produção no segundo semestre de 2027. A nova unidade deverá dobrar a capacidade atual de produção de WPC80 e WPI.
Já a Lactalis mantém uma fábrica de concentrado de proteína do soro (WPC) integrada à produção de queijos em Três de Maio (RS). Nesse modelo, o soro segue diretamente para a fabricação do whey por meio de uma tubulação em circuito fechado.
Bebidas proteicas ampliam a demanda
O mercado de bebidas proteicas também participa desse movimento. Segundo a MilkPoint, o segmento movimenta cerca de 80 milhões de litros por ano. Em comparação, as bebidas UHT (ultrapasteurizadas) tradicionais chegam a quase 500 milhões de litros.
Além disso, Valter Galan, sócio da MilkPoint, afirma que a falta de soro para atender ao mercado já influencia novos projetos industriais. Segundo ele, algumas unidades de produção de queijo estão sendo planejadas com estruturas de processamento de proteína de soro integradas.
Um exemplo é o complexo industrial do Grupo Piracanjuba em São Jorge d’Oeste (PR). O projeto recebeu investimento superior a R$ 500 milhões e reúne produção de queijo, manteiga, whey protein e lactose em pó.
A expectativa informada pela empresa é produzir até 6 mil toneladas anuais de whey protein. Assim, os novos projetos ampliam o aproveitamento do soro gerado pela indústria de queijos e acompanham a expansão do mercado de proteínas.
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