O Uruguai autorizou o Brasil a usar parte do excedente de sua cota de exportação de carne bovina para a China. O anúncio cria uma possibilidade de retomada dos embarques brasileiros em condições mais competitivas após o país atingir o limite reservado por Pequim para 2026.
A autorização foi comunicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva após uma reunião com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, em Nova York. O encontro ocorreu durante a Assembleia Geral das Nações Unidas e também tratou de infraestrutura e comércio agrícola entre os dois países.
“Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China”, afirmou Lula em uma publicação nas redes sociais.
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Apesar do anúncio, os frigoríficos brasileiros ainda não podem considerar o volume disponível. A quantidade que será transferida não foi divulgada e a mudança precisa ser reconhecida pelo governo chinês, responsável pelas regras do sistema de cotas.
Brasil já atingiu o limite para 2026
A China reservou ao Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina em 2026. O volume entrou no país asiático com a tarifa regular de 12%, mas foi preenchido em menos de sete meses diante do ritmo acelerado das vendas.
Quando os embarques ultrapassam o limite, Pequim aplica uma sobretaxa adicional de 55%. Assim, a carga tarifária chega a 67% e reduz a competitividade da proteína brasileira no maior mercado comprador do setor.
O avanço rápido das vendas já vinha sendo acompanhado pelo Agro em Campo. Em agosto, a China havia utilizado 90% da cota brasileira. Com a confirmação do esgotamento, o ritmo dos embarques caiu e parte dos frigoríficos precisou rever produção, abates e destinos comerciais.
O cenário também elevou a preocupação de pecuaristas e indústrias. A tarifa de 67% passou a travar as exportações e aumentou a necessidade de alternativas para manter o fluxo de vendas ao exterior.
Uruguai ainda tem espaço disponível
O Uruguai recebeu uma cota de 324 mil toneladas para 2026. Como o país utilizou apenas uma parcela desse limite ao longo do ano, existe um saldo que poderia ser aproveitado pelo Brasil.
A autorização uruguaia, porém, não transfere automaticamente a cota. As salvaguardas chinesas foram organizadas por país de origem, o que exige uma definição de Pequim sobre a forma de contabilizar a carne brasileira dentro do limite concedido ao Uruguai.
Medida deve ter efeito limitado neste ano
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) avaliou a iniciativa de forma positiva, mas alertou que o impacto imediato tende a ser pequeno.
“Neste momento, porém, um eventual aproveitamento do excedente da cota uruguaia teria efeito limitado em 2026, considerando o tempo necessário para negociação, embarque e trânsito da mercadoria até a China”, informou a entidade.
O tempo é um dos principais obstáculos. A indústria precisa conhecer as regras, fechar os contratos, preparar os produtos e enviar as cargas. Além disso, os embarques feitos a partir de novembro já podem ser direcionados à cota brasileira de 2027.
Para o próximo ano, o limite do Brasil subirá para 1,128 milhão de toneladas. O aumento será de apenas 22 mil toneladas em relação a 2026 e o setor teme que a cota volte a se esgotar nos primeiros meses caso o ritmo de vendas seja mantido.
“Para 2027, a medida pode representar uma alternativa importante, especialmente diante da cota brasileira de 1,128 milhão de toneladas e do risco de seu esgotamento já nos primeiros meses do ano, caso se mantenha o atual ritmo de vendas”, destacou a Abiec.
Acordo pode aliviar pressão sobre o setor
Se a China autorizar a utilização do saldo uruguaio, os frigoríficos brasileiros poderão recuperar parte do espaço perdido no mercado asiático e evitar a sobretaxa sobre um novo lote de carne. O efeito dependerá do tamanho da cota liberada e da rapidez da regulamentação.
Além disso, a medida também pode sustentar a demanda por boi gordo no Brasil. A China ocupa a liderança entre os compradores da carne bovina brasileira, por isso mudanças no ritmo dos embarques costumam afetar frigoríficos, pecuaristas e preços pagos ao produtor.
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