O Brasil já utilizou 78,86% da cota anual de exportação de carne bovina para a China, segundo dados divulgados pelo governo chinês. O avanço do volume importado pelo principal comprador da proteína brasileira fez exportadores considerarem que o limite está praticamente esgotado, o que já provoca mudanças na rotina dos frigoríficos.
As informações da Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC) e do Ministério do Comércio (Mofcom) mostram que 872,2 mil toneladas de carne bovina in natura produzida no Brasil foram internalizadas no país asiático entre janeiro e junho. Somente em junho, entraram 148,7 mil toneladas.
A cota brasileira para 2026 é de 1,106 milhão de toneladas, com tarifa de importação de 12%. Acima desse limite, os embarques ficam sujeitos a sobretaxa de 55%, além da possibilidade de devolução das cargas ou atraso na liberação aduaneira.
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Frigoríficos já reduzem produção e embarques
Mesmo antes do preenchimento total da cota, frigoríficos habilitados a exportar para a China começaram a adaptar suas operações.
Entre as medidas adotadas estão:
- redução do ritmo de abates;
- férias coletivas;
- ajustes na produção;
- suspensão de cortes específicos destinados ao mercado chinês;
- diminuição dos embarques durante julho.
A estratégia busca evitar que a carne chegue à China após o esgotamento do limite tarifário, o que elevaria significativamente os custos de importação.
Diferença entre embarques e cargas já internalizadas
Existe uma diferença entre os dados brasileiros de exportação e os números divulgados pelas autoridades chinesas.
Enquanto o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) registra 774,1 mil toneladas exportadas em 2026, o governo chinês contabiliza volumes embarcados ainda em 2025 que foram desembarcados somente neste ano.
Segundo exportadores, cerca de 227,7 mil toneladas seguem em trânsito para a China. Considerando esse volume, restariam aproximadamente 5,9 mil toneladas livres dentro da atual cota.
Mercado espera esgotamento da cota em agosto
A expectativa do setor é que a China confirme ainda nesta semana o preenchimento de 80% da cota brasileira e alcance 100% durante agosto.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, afirmou na semana passada que o Brasil deve encerrar 2026 com aproximadamente 900 mil toneladas exportadas para o mercado chinês.
A previsão é que a produção destinada ao país asiático seja retomada em outubro, com novos embarques previstos para novembro, já considerando a abertura da cota de 2027.
Analistas acompanham ritmo da logística
O mercado também monitora o ritmo de internalização das cargas.
Para Fernando Iglesias, analista da consultoria Safras e Mercado, o Brasil deveria ter alcançado esse percentual anteriormente.
Segundo ele, o atraso pode estar relacionado ao tempo maior de transporte marítimo ou à demora nos procedimentos alfandegários realizados pelas autoridades chinesas.
Outros países ainda utilizam pequena parte de suas cotas
Enquanto o Brasil se aproxima do limite anual, outros grandes fornecedores ainda utilizam apenas parte das cotas disponíveis.
No primeiro semestre:
- Estados Unidos: 876 toneladas (0,53% da cota);
- Nova Zelândia: 59,5 mil toneladas (29%);
- Uruguai: 82,3 mil toneladas (25,4%);
- Argentina: 239,5 mil toneladas (47%).
Já a Austrália ultrapassou sua cota e registrou 588 toneladas acima do limite estabelecido.
Cenário pode beneficiar concorrentes
A Safras e Mercado avalia que o esgotamento da cota brasileira poderá abrir espaço para o aumento das exportações de países como Argentina, Uruguai e Nova Zelândia.
A consultoria também observa crescimento da demanda por carne bovina brasileira em mercados como Estados Unidos, Hong Kong, Uruguai e Argentina. Segundo a análise, parte desse movimento pode indicar operações de triangulação comercial, permitindo que o produto alcance o mercado chinês de forma indireta.
Ao todo, a China importou 1,5 milhão de toneladas de carne bovina in natura entre janeiro e junho, o equivalente a 56,9% da cota global de 2,6 milhões de toneladas destinada aos fornecedores internacionais em 2026. Esse cenário reforça a importância do mercado chinês para o agronegócio brasileiro e mantém o setor atento aos próximos anúncios sobre o limite de importações.
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