A United Airlines está reposicionando os cartões de crédito no centro de sua estratégia de fidelização. Em 2026, a companhia ampliou as vantagens para titulares de cartões co-branded, reduziu benefícios para passageiros que não os possuem e anunciou mudanças importantes nos critérios de qualificação para o status Premier.
A partir de 2027, os trechos voados deixarão de contar para a progressão de categoria, que passará a considerar os gastos elegíveis com passagens e cartões da companhia. E a transformação não deve parar por aí. Em entrevista ao site The Points Guy, o presidente do MileagePlus, Jarad Fisher, afirmou que novas mudanças estão a caminho.
A estratégia vai além de estimular o consumidor a concentrar despesas no cartão da companhia. A United aproxima as regras de acúmulo, resgate e progressão de status do relacionamento financeiro que o passageiro mantém com a marca. Ter um cartão passa a fazer diferença em diferentes etapas da experiência, inclusive na hora de utilizar as milhas.
É uma visão ambiciosa de fidelização e um convite a observar o mercado brasileiro. Latam, Gol e Azul já vinculam seus cartões à progressão nos programas de categoria, mas ainda há espaço para avançar na integração entre os produtos financeiros e a experiência de viagem.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o cartão United MileagePlus lançado pelo Bradesco no Brasil. Anunciado com expectativa, o produto ficou aquém tanto dos benefícios oferecidos pela companhia em outros mercados quanto das expectativas de consumidores mais experientes no universo das milhas.
United muda as regras para favorecer quem tem cartão
As mudanças implementadas em 2026 alteraram o equilíbrio do MileagePlus. Titulares de cartões da companhia passaram a acumular mais milhas em voos, enquanto passageiros sem esses produtos tiveram a pontuação reduzida. Os clientes com cartão também ganharam acesso a tarifas mais baixas em determinadas emissões e a condições menos restritivas em algumas passagens Basic Economy.
O cartão deixa, assim, de funcionar apenas como um canal adicional de acúmulo de milhas. Passa a influenciar diretamente o custo das emissões e o acesso a determinadas recompensas. Dois passageiros inscritos no MileagePlus podem encontrar condições distintas conforme tenham ou não um cartão da United.
A estratégia também alcança a conquista de status. A partir de 2027, a companhia eliminará os PQF (Premier Qualifying Flights), métrica que contabiliza os trechos voados, e manterá a qualificação baseada nos PQP (Premier Qualifying Points). Esses pontos consideram os gastos elegíveis com passagens e cartões United. A exigência de pelo menos quatro voos operados pela própria companhia durante o período de qualificação, porém, será mantida.
A mudança simplifica os critérios, mas reforça o peso do cartão na relação com o programa. Gastos cotidianos poderão ajudar o cliente a avançar de categoria, mesmo quando não estiverem diretamente relacionados a uma viagem. Para a United, isso amplia as oportunidades de relacionamento e geração de receita. Para o consumidor, cria um caminho adicional para alcançar benefícios como prioridade e upgrades, desde que os gastos justifiquem a estratégia.
Fisher afirmou que a empresa pretende continuar adaptando o MileagePlus para ampliar as vantagens de quem possui um cartão United. Segundo o executivo, a ambição é construir o melhor programa de fidelidade do mundo. Parte das mudanças futuras, de acordo com a reportagem, dependerá da renegociação do contrato com o Chase, o banco que emite os cartões da companhia nos Estados Unidos, cujo acordo atual vai até 2029.
A declaração deixa claro que não se trata de uma ação promocional isolada. A United redesenha o programa a partir de uma premissa comercial: ser cliente MileagePlus oferece vantagens, mas a experiência deve ser ainda melhor para quem também mantém um cartão da companhia.
Cartão passa a influenciar o valor das milhas

A integração também chegou às condições de resgate. Em fevereiro de 2026, a United anunciou descontos de pelo menos 10% nas emissões com milhas para titulares de cartões elegíveis. Para clientes com status Premier, a redução pode chegar a 15%. A companhia também ampliou o acesso a assentos Saver Award, incluindo opções na classe executiva United Polaris para públicos que antes tinham acesso mais restrito.
Segundo a empresa, algumas tarifas promocionais identificadas como “Cardmembers Save” podem representar uma economia média de aproximadamente 30% em relação ao preço padrão de resgate. O percentual se refere a uma modalidade específica de disponibilidade e não significa que o desconto esteja garantido em qualquer passagem ou data.
O diferencial está na natureza do benefício. Em vez de oferecer apenas pontuação adicional nas compras, a United cria vantagens que se materializam quando o consumidor decide viajar. Isso pode elevar a percepção de valor do cartão e tornar o programa mais competitivo.
Acumular mais milhas e conseguir utilizá-las em condições melhores são vantagens distintas. Um saldo elevado não garante, por si só, uma boa experiência: o passageiro continua sujeito à disponibilidade de assentos, às regras de emissão e à quantidade de milhas exigida. Ao interferir também nessas condições, a United amplia o papel do cartão dentro do programa.
No Brasil, o acúmulo ainda fala mais alto
As companhias aéreas brasileiras já entenderam que os cartões co-branded podem ajudar a construir fidelidade. Latam Pass, Smiles e Azul Fidelidade permitem que os gastos nos cartões contribuam para a progressão de categoria. O problema é que a estratégia ainda está concentrada no acúmulo e dedica pouca atenção ao que acontece depois.
De que adianta acumular milhas e conquistar status se, na hora de emitir uma passagem, o cliente encontra preços elevados, disponibilidade limitada ou uma experiência frustrante? É no resgate que a fidelidade é colocada à prova. Se o passageiro não consegue converter os benefícios prometidos em vantagens concretas, o que o levaria a continuar escolhendo a mesma companhia?
A United avança ao conectar o cartão às condições de resgate. No Brasil, as empresas deveriam olhar com mais atenção para essa etapa e para os benefícios oferecidos durante o voo. Um cartão premium vinculado a uma companhia aérea precisa entregar vantagens dentro da própria empresa, além de milhas. A pontuação é o ponto de partida, sobretudo para um consumidor que já dispõe de cartões com taxas de acúmulo e benefícios competitivos.
A Azul já avançou nessa direção ao conceder a categoria Diamante aos portadores de seus cartões premium. A Gol segue caminho semelhante, com a categoria Prata no Smiles. A Latam, por outro lado, ainda tem problemas básicos a resolver. Nem mesmo o grupo de embarque prioritário, anunciado como benefício, é atribuído automaticamente no check-in. Para uma companhia que disputa passageiros de alta renda, a falha compromete a percepção de valor do programa.
Executivos do setor deveriam considerar que o público capaz de manter um cartão premium também tem alternativas. Pode optar por produtos com pontuação superior, acesso mais amplo a salas VIP e benefícios que independem de ser fiel a uma companhia aérea. Para convencer esse consumidor a concentrar seus gastos em um cartão co-branded, a marca precisa oferecer vantagens que ele dificilmente encontraria em outro produto.
O que muda para o cartão da United no Brasil?
A estratégia anunciada pela United nos Estados Unidos também levanta uma questão sobre a parceria com o Bradesco. Com a ampliação dos benefícios do MileagePlus, os titulares do cartão brasileiro terão acesso às mesmas vantagens? Os descontos nas emissões com milhas, o acesso ampliado a assentos Saver Award e os mecanismos de progressão de status também poderão chegar ao produto nacional?
Até agora, o cartão Bradesco United MileagePlus tem limitações que o tornam pouco atraente. Como a coluna mostrou em setembro, o Visa Infinite acumula até 3 milhas por dólar em compras na companhia, 1 milha em gastos no Brasil e 2 no exterior, além de incluir dois passes anuais para o United Club, mas não oferece um mecanismo específico para acelerar a conquista do status Premier.
A diferença entre os produtos de cada mercado não significa que os benefícios americanos serão automaticamente replicados no Brasil. Isso dependerá dos acordos comerciais entre United e Bradesco e das condições da parceria.
Se a companhia pretende transformar o cartão em uma peça central de sua estratégia de fidelização, porém, seria importante que essa ambição também se refletisse no produto oferecido aos brasileiros.










