O senador Flávio Bolsonaro (PL) fugiu do Brasil rumo aos Estados Unidos, segundo declarações divulgadas nesta terça-feira (27/10) por aliados próximos e uma fonte do governo dos EUA citada pela agência Reuters.
O episódio ocorre dois dias após o senador de extrema direita perder a eleição presidencial para Lula numa virada histórica e depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar que Flávio entregasse seus passaportes e proibir o político de deixar o Brasil.
Nesta terça-feira, a Polícia Federal (PF) cancelou os passaportes brasileiros de Flávio após o senador não entregar os documentos. No mesmo dia, começaram a surgir relatos na imprensa argentina de que Flávio pretendia usar o país vizinho para seguir rumo aos EUA. Flávio não é visto em público desde segunda-feira.
Veja o que se sabe até agora sobre o paradeiro de Flávio Bolsonaro.
A ordem de Moraes
Na noite de domingo, o ministro Alexandre de Moraes proibiu o senador Flávio Bolsonaro de deixar o Brasil e ordenou que ele entregasse todos os seus passaportes.
A decisão partiu da Justiça com base num pedido protocolado pela Polícia Federal (PF) sete minutos após a confirmação matemática do resultado das urnas, que apontou a derrota do senador, segundo informação obtida pelo jornal O Globo.
A PF viu risco de fuga. Flávio é investigado em duas ações criminais: por suspeita de lavagem de dinheiro e outros crimes no âmbito dos escândalos do Banco Master e dos desvios no INSS – neste último caso, ele é investigado junto com o advogado e amigo Willer Tomaz, que já deixou o Brasil rumo aos EUA em agosto.
Derrotado na eleição presidencial e com o mandato de senador se aproximando do fim, Flávio deve perder o foro privilegiado no Supremo a partir de fevereiro.
Na ordem, Moraes ainda determinou a entrega dos passaportes brasileiros (o comum e o diplomático) de Flávio e outras nacionalidades em até 24 horas. Além do documento brasileiro, Flávio tem um passaporte italiano.
Irmão de Flávio defendeu que senador deixasse o país
O pedido da PF a Moraes mencionou uma fala do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, ao podcast americano Louder with Crowder. No programa, o deputado federal cassado disse que, se o senador perdesse a eleição, deveria deixar o país.
“Se meu irmão não ganhar [a eleição], sou a favor de que ele deixe o país”, afirmou Eduardo Bolsonaro no podcast.
Moraes também proibiu o contato de Flávio com Willer Tomaz, de quem o senador é amigo. O prazo para entrega dos passaportes expirou às 11h desta terça sem que fosse cumprida a determinação.
Depois disso, a PF cancelou os passaportes do senador: o comum e o diplomático. Porém, não tinha o mesmo poder sobre o documento italiano de Flávio.
“Nunca pensei em sair do país”
A última aparição pública de Flávio Bolsonaro ocorreu na tarde de segunda-feira. Na ocasião, ele publicou um vídeo nas redes sociais dizendo ter sido intimado pela PF para entregar seus passaportes. Nas imagens, o senador apareceu sozinho, em frente a um muro em local não identificável.
Na mesma publicação, Flávio agradeceu aos eleitores que votaram nele e afirmou que pretendia pedir cassação da chapa de Lula por abuso de poder econômico.
“Não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou”, disse.
No mesmo vídeo, Flávio afirmou que não pretendia deixar o Brasil: “Eu nunca pensei em sair do país”, disse. “Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar”.
Jatinho na Argentina teria sido usado como despiste, dizem aliados
Durante a madrugada desta terça-feira, o site argentino Infobae reportou que Flávio Bolsonaro havia cruzado a fronteira entre o Brasil e a Argentina rumo à cidade de Puerto Iguazú. De lá, segundo a publicação, Flávio pegaria um voo particular para Miami, nos Estados Unidos.
O aeroporto de Puerto Iguazú fica a cerca de 22 quilômetros da fronteira com o Brasil. Após a publicação da reportagem do Infobae, aliados de Flávio relataram que não conseguiam mais contato com o senador. Jornalistas também reportaram que ele não estava em nenhuma de suas residências.
Segundo o Infobae, o jatinho privado havia sido fretado da companhia aérea Baires Fly S.A. e a viagem envolveria quatro passageiros e três tripulantes. Flávio, de acordo com o site, teria cruzado a fronteira com um documento comum de identidade, o que é permitido entre países do Mercosul.
A PF brasileira não identificou registros da passagem do senador por algum ponto regular de migração brasileira.
De acordo com dados do site de monitoramento aéreo FlightRadar24, o avião voou de Buenos Aires para Puerto Iguazú na noite de segunda-feira.
Já o jornal argentino La Nación, citando fontes da Polícia de Seguridad Aeroportuaria (PSA) da Argentina, informou que o voo tinha partida prevista para às 2h, sem destino.
A aeronave, no entanto, nunca decolou e o voo teria sido cancelado porque um dos quatro passageiros não chegou a tempo.
Mais tarde, foi a vez de o portal argentino Iguazú Ahora informar que a aeronave tinha mudado o horário de partida, com o voo agora decolando às 17h com destino a Miami. Segundo a publicação, autoridades do aeroporto afirmaram que Flávio não estaria na lista de passageiros. Já o portal regional Misiones Online disse que autoridades de aviação civil argentinas negaram a permissão técnica de decolagem para o voo rumo a Miami.
O avião permanecia em Puerto Iguazú no final da tarde desta terça-feira,
O governo da Argentina negou à DW que Flávio Bolsonaro tenha ingressado no país. A informação foi dada nesta terça-feira (27/10) pelo Departamento de Migrações, que registra os cruzamentos pelas fronteiras, e pela Presidência da Argentina.
“É falso. Não houve nenhuma entrada nem de (Flávio) Bolsonaro nem da sua família. Nós desmentimos isso enfaticamente”, disse Fabián Fernández, secretário de Consumição e Imprensa do presidente Javier Milei.
Flávio embarca com a família rumo aos EUA
Horas depois da divulgação de informações desencontradas sobre o avião em Puerto Iguazú, começaram a surgir os primeiros relatos de que Flávio havia conseguido embarcar rumo aos Estados Unidos. A rota tomada ainda é incerta.
Segundo relatos de aliados à imprensa brasileira, o avião em Puerto Iguazú foi usado como despiste, e Flávio seguiu por outro caminho. A PF investiga a suspeita de que saída possa ter ocorrido pela Venezuela, atualmente sob tutela dos Estados Unidos.
A informação de que Flávio teria sido bem-sucedido em embarcar aos EUA foi divulgada por aliados do senador e uma fonte do governo dos EUA citada pela agência Reuters.
Jornais brasileiros também apontam que Flávio embarcou com a mulher e as duas filhas. O UOL afirmou que uma das filhas de Flávio chegou a se despedir de duas colegas na segunda, dizendo que ia para “os EUA”.
Ao jornal Folha de S.Paulo, advogados de Flávio disseram que a fuga ocorreu à revelia da equipe jurídica e que o clima é de perplexidade.
Na noite desta terça, a TV Globo noticiou que o Departamento de Estado americano concederia vistos a Flávio Bolsonaro e a sua família. O governo Trump, porém, não informou oficialmente se eles já estavam em território dos EUA.
“O Departamento de Estado emitirá vistos para Flavio Bolsonaro e sua família e permitirá sua entrada nos Estados Unidos”, informou o órgão
A posição do governo Trump sobre as eleições no Brasil
Até a noite desta terça-feira, os Estados Unidos não haviam parabenizado Lula oficialmente pelo resultado da eleição presidencial brasileira, em contraste com países como Alemanha, França, China, Espanha e Portugal.
Apesar de Trump não ter endossado nominalmente qualquer candidato no pleito, a Casa Branca transparecia que tinha preferência por Flávio Bolsonaro. A vitória inesperada de Lula interrompeu na América Latina uma sequência de eleições bem-sucedidas de políticos de direita próximos da Casa Branca de Trump.
Lula derrotou Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial ao receber 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador. A vantagem foi de quase 4,4 milhões de votos.
Na segunda-feira, Donald Trump disse achar que a eleição brasileira “parece fraudada”. Questionado por repórteres sobre sua avaliação do pleito, ele disse que foi “terrível” e que “achou uma situação muito ruim”.
“Passou uma impressão muito ruim. A eleição, a maneira como os votos foram contabilizados, sabe? Com a prorrogação do horário de votação, foi muito estranho”, disse Trump, em referência à prorrogação por duas horas do período de votação determinada pelo STF.
jps (ots)










