Um celular roubado ou furtado pode passar, em pouco tempo, das mãos de quem comete o crime para receptadores, especialistas em desbloqueio, lojas e empresas de revenda. Uma investigação de dois anos do Ministério Público de São Paulo (MPSP) mapeou essa cadeia e revelou uma estrutura que lucra em diferentes etapas até recolocar aparelhos ou peças no mercado.
A apuração levou à Operação Frankmobile, deflagrada na quinta-feira (10), que apreendeu mais de 50 toneladas de celulares e componentes em São Paulo e Goiás. Quinze pessoas foram presas. Detalhes do esquema foram mostrados em reportagem especial exibida pelo Fantástico neste domingo (13).
Os investigadores identificaram quatro grupos dentro da cadeia. Ela começa com quem retira os aparelhos das vítimas e avança por desbloqueio, acesso a informações pessoais, adulteração dos celulares e revenda. Quando não é possível comercializar o telefone inteiro, ele é desmontado e suas peças seguem para o mercado.
Do roubo ao desbloqueio
O primeiro grupo reúne criminosos responsáveis por roubos e furtos. A investigação cita ações da chamada “gangue do quebra-vidro”, que ataca motoristas parados no trânsito, além de furtos em grandes eventos e crimes praticados com violência.
Depois, entram em ação pessoas especializadas em acessar os aparelhos. Segundo o MPSP, esse segundo grupo tentava desbloquear os celulares e retirar informações pessoais das vítimas. A investigação também aponta tentativas de acessar contas bancárias e transferir dinheiro para terceiros.
O passo seguinte era preparar o telefone para voltar ao mercado. Investigadores encontraram técnicas usadas para alterar o IMEI, código que funciona como uma identificação do aparelho, além de ferramentas destinadas a remover outros bloqueios. Parte dos serviços era feita com programas e páginas hospedadas fora do Brasil.
Com a identificação alterada, um celular que tinha registro de roubo ou furto podia voltar a circular com mais dificuldade de ser relacionado ao crime original.
Nem todo aparelho, porém, era revendido inteiro.
O quarto grupo identificado pelos investigadores desmontava os celulares. Tela, câmera, bateria, placa e outros componentes podiam ser comercializados separadamente, permitindo que peças retiradas de um aparelho roubado voltassem ao mercado sem o telefone original.
Aparelhos chegavam ao Centro de São Paulo
A investigação reconstruiu ainda parte do caminho percorrido pelos telefones depois dos crimes. Regiões conhecidas pelo comércio de eletrônicos no Centro de São Paulo aparecem entre os pontos investigados.
A rota inclui as ruas Guaianases e Santa Ifigênia, a região da 25 de Março e o Shopping Mundo Oriental. Segundo a Promotoria, nesses locais funcionavam pontos de receptação, desbloqueio, alteração dos aparelhos e venda de peças.
Em alguns casos analisados pelos investigadores, a localização dos celulares indicava que eles chegavam rapidamente a esses endereços depois de serem levados das vítimas.
A investigação combinou acompanhamento de suspeitos, perícias digitais e cruzamento de informações fiscais e financeiras. Cães treinados para localizar equipamentos eletrônicos também foram usados durante as buscas.
Ao todo, a Justiça autorizou 84 mandados de busca e apreensão e sete mandados de prisão. A ação reuniu cerca de 1.700 agentes das forças de segurança e de órgãos públicos.
O balanço divulgado após a operação apontou mais de 50 toneladas de celulares e peças apreendidas. Aproximadamente 10 mil aparelhos foram encontrados em dois dos endereços vistoriados. Também foram recolhidos R$ 122,5 mil em dinheiro, notebooks, tablets, pendrives e outros equipamentos.
Empresas são investigadas
A apuração não ficou restrita às pessoas que roubavam, desbloqueavam ou vendiam aparelhos em pequenos estabelecimentos. Empresas que trabalham com celulares usados e recondicionados também entraram no radar dos investigadores.
Entre os alvos está a Trocafone. Segundo a investigação, uma fiscalização identificou 759.317 aparelhos movimentados ou vendidos por uma unidade da empresa sem que houvesse uma nota fiscal de entrada correspondente ao IMEI. O MPSP pediu à Justiça a suspensão das atividades da companhia e o bloqueio de até R$ 95,7 milhões ligados à empresa.
A Trocafone nega participação no esquema. Em nota divulgada à imprensa, a empresa afirmou que não integra a organização investigada, não colabora com grupos criminosos e apoia ações de combate ao mercado ilegal de celulares.
Outras empresas e comerciantes também são investigados por suspeita de ajudar a dar aparência legal a aparelhos que teriam origem criminosa. O MPSP apura, entre outros pontos, movimentações financeiras consideradas incompatíveis com o porte de alguns negócios e a emissão de documentos fiscais usados na comercialização dos produtos.
Na quinta-feira (10), o iG já havia noticiado a deflagração da Operação Frankmobile, que cumpriu quase 90 mandados e mirou justamente os diferentes grupos responsáveis por retirar os celulares das vítimas, desbloqueá-los e colocá-los novamente à venda.
As investigações continuam com a análise do material apreendido. Os celulares e equipamentos recolhidos podem revelar novos integrantes da cadeia, movimentações financeiras e outros destinos dados aos aparelhos roubados e furtados.
Quem compra um telefone usado também pode consultar gratuitamente o IMEI antes de fechar negócio. O Ministério da Justiça e Segurança Pública mantém no programa Celular Seguro uma base que informa se o aparelho tem registro de roubo, furto ou extravio.










