A Rio Innovation Week, evento dedicado à tecnologias e inovação, abriu nesta terça, (4), com uma reflexão provocativa. No painel chamado Inovação Ancestral, o escritor, filósofo e líder indígena Ailton Krenak convidou o público a olhar para o passado como uma forma de compreender os desafios do presente e imaginar um futuro possível.
Baseando sua apresentação no livro Futuro Ancestral, Krenak argumentou que a humanidade atravessa uma transformação que vai além das mudanças climáticas. Para ele, não são apenas as pessoas que vivem um período de instabilidade: o próprio planeta responde de maneira diferente às intervenções humanas.
“Não são apenas nossos corpos que estão desajustados. O planeta Terra, esse organismo vivo, está passando por mudanças que vão além do clima“, afirmou.
Ao longo da conversa, Krenak questionou a ideia de progresso associada à busca permanente pelo novo. Segundo ele, a sociedade foi convencida de que inovação significa romper continuamente com o passado, substituindo conhecimentos, práticas e formas de viver por novidades cada vez mais rápidas.
Foi justamente esse incômodo que motivou a escrita de Futuro Ancestral. Para o autor, a valorização constante da disrupção e do entretenimento acaba afastando as pessoas da experiência concreta de viver e observar o mundo ao redor.
Novos refugiados
Entre as reflexões apresentadas, uma das mais contundentes relacionou as mudanças ambientais ao deslocamento de populações.
Ao comentar incêndios florestais registrados em diferentes partes do mundo, Krenak observou que eventos extremos já obrigam pessoas a abandonar suas casas, inclusive em países tradicionalmente associados à estabilidade econômica.
“Os humanos estão refugiados em lugares como França, Espanha e Estados Unidos”.
Para o líder indígena, essa realidade amplia o significado da palavra “refugiado”. A perda de condições para viver com segurança e qualidade em determinados territórios, provocada pela degradação ambiental, passa a fazer parte da experiência contemporânea de diferentes sociedades.
“A ideia de uma humanidade que compra o progresso, mas não tem onde viver com qualidade na Terra devia ser conteúdo nas escolas, nas nossas conversas”, afirmou.
Contar histórias: uma tecnologia
Outro eixo central do painel foi a defesa da narrativa como patrimônio da humanidade.
Para Krenak, a capacidade de contar histórias representa uma tecnologia ancestral que vem sendo enfraquecida por um modelo de sociedade baseado no consumo permanente de informações e entretenimento.
“Narrar, contar histórias, é uma qualidade humana, mas estamos sendo sabotados por uma ampla e consistente construção de mundo onde você não precisa saber contar nada; você vira um receptor e não um emissor.”
Segundo ele, recuperar essa prática significa preservar uma forma de conhecimento construída ao longo das gerações, capaz de fortalecer vínculos entre pessoas, territórios e culturas.
“Contar história podia ser uma experiência de tecnologia, uma tecnologia que estamos perdendo”, disse.
Para ele, recuperar o tempo dedicado à escuta e às narrativas talvez seja uma das formas mais importantes de enfrentar os desafios ambientais e sociais da atualidade.
“A gente tem que decidir se quer estar no mundo comprando coisas ou se tem tempo para escutar histórias.









