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Relatório aponta fraude nas eleições, mas distorce dados do TSE

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Urna eletrônicaMARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

Um documento divulgado nas redes sociais afirma ter encontrado fraude no segundo turno das eleições, realizado no domingo (25). Apresentado como um “Relatório Pericial Independente”, o material atribui a vitória de Luís Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) aos votos feitos depois das 17h. No entanto, os números apresentados não correspondem aos dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Segundo o relatório, cerca de 1,8 milhão de votos teriam sido registrados durante a prorrogação da votação. Os dados do tribunal, porém, apontam que foram apenas 34.393 votos nesse período.

Além da quantidade de votos após às 17h, o material questiona os procedimentos de identificação dos eleitores, a divulgação dos boletins de urna e a distribuição dos votos entre os candidatos.

Como funcionou a prorrogação da votação

A votação do segundo turno foi prorrogada por decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida permitiu que as seções eleitorais que ainda estavam recebendo eleitores continuassem abertas até as 19h.

A decisão foi tomada pouco depois das 17h, horário previsto para o encerramento da votação. Por causa da mudança, o TSE interrompeu temporariamente o recebimento dos boletins de urna, a contagem dos votos e a divulgação dos resultados. Os procedimentos foram retomados depois das 19h.

Essa pausa não significa que os votos registrados antes das 17h tenham sido descartados ou contabilizados como se fossem novos. Isso porque cada boletim de urna reúne o resultado completo de uma seção eleitoral, incluindo todos os votos registrados durante o período de votação.

Assim, quando os boletins começaram a ser processados novamente, os resultados divulgados incluíam tanto os votos registrados antes das 17h quanto aqueles computados durante a prorrogação.

A própria evolução da apuração também contraria a informação apresentada pelo relatório. Entre 17h10 e 19h, período em que a contagem começou e depois foi interrompida, Lula já aparecia na liderança, com 55,53% dos votos.

Às 19h45, houve uma mudança na primeira posição. No entanto, pouco menos de uma hora depois, às 20h25, Lula voltou à liderança e continuou nessa posição até o final da apuração.

Além disso, o levantamento do TSE identificou 34.393 votos registrados após as 17h, nas 497.333 seções eleitorais que continuaram abertas durante a prorrogação. O número é muito distante dos 1,8 milhão apontados pelo relatório.

Falha na biometria não significa voto irregular

Outro ponto usado pelo documento para levantar suspeitas envolve os eleitores que as digitais não foram reconhecidas pelas urnas. 

Quando a urna não consegue identificar as digitais do eleitor, existe um procedimento alternativo para confirmar sua identidade. Nesses casos, o mesário confere o documento oficial com foto e os dados do eleitor. Em seguida, a pessoa precisa informar seu ano de nascimento, dado que não consta nos documentos que o mesário tem acesso. Essas informações são registradas e podem ser consultadas em investigações.

O falso relatório compara a quantidade de eleitores que passaram por esse processo com a diferença de votos entre os dois candidatos para sugerir que houve irregularidades. Essa comparação não permite determinar quantos desses eleitores votaram depois das 17h nem em quem votaram.

É possível comparar a quantidade de eleitores identificados pelo procedimento alternativo com os resultados gerais de uma seção eleitoral. Mas isso não revela o voto individual de ninguém nem demonstra que a forma de identificação tenha mudado o resultado.

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Teste estatístico não comprova fraude

O documento também afirma ter usado a Lei de Benford para encontrar possíveis irregularidades nos resultados das urnas.

Esse método estatístico analisa a frequência com que certos números aparecem como primeiro algarismo de uma sequência de dados. Ele pode ser usado para procurar sinais de possíveis alterações em registros financeiros, contábeis e de outras áreas.

No entanto, a aplicação desse tipo de análise a resultados eleitorais exige cuidados. Segundo esclarecimento publicado pelo TSE, utilizar apenas o primeiro algarismo dos números para afirmar que houve fraude é incorreto.

Boletins de urna estavam disponíveis para consulta

Outra alegação é que os boletins de urna ficaram indisponíveis por 72 horas. A afirmação também não corresponde aos procedimentos da Justiça Eleitoral.

Os boletins são impressos ao fim da votação e colados nas respectivas portas. No domingo, os resultados também foram publicados na página Resultados, mantida pelo TSE.

Além disso, o QR Code impresso nos boletins permite consultar os dados e compará-los com as informações divulgadas pelo tribunal.

Os boletins do primeiro e do segundo turno das Eleições 2026 também estão disponíveis para consulta pública no Portal de Dados Abertos do TSE.

Seções com votos para apenas um candidato

O relatório também aponta como suspeitas as seções eleitorais em que todos os votos válidos foram a apenas um dos candidatos. Mas, esse tipo de resultado pode acontecer em uma eleição e não indica fraude.

No segundo turno de 2026, 106 seções registraram votos apenas no Lula. Foram 30 seções no Amazonas, 20 no Maranhão, 16 no Pará, oito em Roraima, sete no Tocantins, quatro na Bahia, três no Acre, duas no Ceará, duas em Minas Gerais e duas no Rio Grande do Sul. Também houve uma seção com esse resultado em cada um destes estados: Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Paraná e Rondônia.

Por outro lado, quatro seções registraram votos apenas para Flávio Bolsonaro nos municípios de Arroio do Padre e Cândido Godói, no Rio Grande do Sul, e Jacareacanga e Chaves, no Pará.

Isso não é exclusivo da votação deste ano. No segundo turno de 2022, 143 seções tiveram todos os votos destinados a Lula. Outras quatro registraram votos exclusivamente para Jair Bolsonaro.

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