Cuidar de tranças e celebrar uma ancestralidade que é passada de mãos em mãos e de geração em geração. E a trancista, a condutora dessa passagem, ensinava a cliente a lavar sem desmanchar, a secar bem, a aliviar a coceira, e a rotina vinha da experiência repassada. E não de uma prateleira.
Por isso, o lançamento da Avon Ultra Braids, linha de shampoo, condicionador e tônico para cabelos trançados, é muito mais potente que apenas mais uma linha de produtos chegando no mercado. Quando uma das maiores marcas de venda direta do país coloca a trança no catálogo, ao lado de heróis de venda nacional, como o batom e o hidratante, isso diz duas coisas.
A primeira: esse cuidado faz parte do conceito do que é a beleza brasileira. A segunda: a indústria está enxergando a proporção cultural e econômica do que acontece todos os dias nas cadeiras das trancistas em todo o Brasil.

Por que cuidar de tranças é antirracismo de massa
A trança é tecnologia ancestral africana e, no Brasil, também é linguagem: ela traz identidade, pertencimento, estilo. Mas, mesmo diante desse contexto, o cabelo crespo e trançado passou décadas tratado como “inadequado” ou “exótico” na escola, na entrevista de emprego e no escritório. Algo extravagante que deveria ser evitado.
O tema ainda é atual. Num levantamento da consultoria Trilhas de Impacto com 155 profissionais negras, divulgado em 2023, mais de 70% disseram já ter precisado explicar o próprio cabelo no trabalho. Nos Estados Unidos, 30 estados já aprovaram alguma versão do CROWN Act, que proíbe discriminação por textura e penteado. Algo que acaba atingindo nitidamente somente uma parte da população e tem raízes coloniais.
Dentro desse contexto de discriminação que é tão importante o lançamento oficial de uma linha dedicada às tranças dentro da escala de alcance que Avon possui. Um produto específico diz, em escala, que aquele cabelo é norma, e não algo a ser adaptado com o que sobrou na prateleira. Chega de xampus diluídos em frascos de aplicação de molho ou sprays improvisados para manutenão da saúde capilar.
E escala é o termo mais preciso: pretos e pardos somam 55,5% da população brasileira, segundo o Censo 2022. Quando o cuidado chega pela consultora do bairro, a preço de rotina, a representatividade sai do comercial e entra no banheiro de casa, de uma forma muito mais capilarizada que a ida à loja.
Nesse lançamento existe também uma dimensão de saúde. A tensão excessiva nos fios está associada à alopecia de tração, que atinge cerca de um terço das mulheres de ascendência africana, segundo revisão de 2018 publicada na Clinical, Cosmetic and Investigational Dermatology . Produto e orientação andam juntos, e a trancista segue sendo a primeira linha desse cuidado.
E isso não passa desapercebido pelo consumidor. Na pesquisa “O Consumo Invisível da Maioria”, do Instituto Akatu e do DataRaça , 64% dos entrevistados negros disseram que a representatividade torna a marca mais confiável. E 37,4% já compraram ou indicaram marcas que respeitam a população negra. É o simples ato de se enxergar no portfólio da marca. Você não compra mais a imagem de uma pessoa que não se parece com você.
O mercado que as tranças movimentam
A trança é um mercado negro e feminino. Em junho de 2025, a ocupação de trancista ganhou código próprio na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO 5161-65), do Ministério do Trabalho. Em São Paulo, a Assembleia Legislativa analisa a criação do Dia Estadual da Pessoa Trancista, em 6 de junho, em homenagem a Daí (Idalice Moreira Bastos), referência na valorização das tranças no país.
E o ecossistema das tranças vai muito além das cadeiras das trancistas: fibras vendidas em pacotes (uma cabeça completa pode precisar de vários), cursos, lojas de insumos e, agora, finalmente, a expansão do mercado de cosméticos de manutenção. Em Fortaleza, um lojista ouvido pelo Diário do Nordeste contou que o faturamento triplicou depois que passou a atender trancistas. É a concretização do reflexo da valorização crescente da ancestralidade de uma parcela da população que por muito tempo se viu direcionada às químicas de alisamento e relaxamento dos cachos para alcançar um ideal de beleza imposto.
Esse mercado acaba se vendo dentro de um crescimento cultural também. As tranças estiveram entre as tendências do BBB25 e ocupam feeds, palcos e passarelas. Em agosto de 2025, a Cécred, marca de Beyoncé, lançou uma linha inteira para tranças, dreads e laces. O cuidado com penteados protetores virou categoria global.
O Brasil já viu esse filme. A onda dos cachos e crespos da última década mostrou que o suposto nicho era maioria: segundo o Instituto Beleza Natural, 70% dos brasileiros têm cabelo cacheado, ondulado ou crespo. O consumo da população negra movimenta quase R$ 2 trilhões por ano, segundo o DataRaça e o Akatu. O caminho é natural: é nítido que a trança é o próximo capítulo a ser explorado.

O que o lançamento da Avon revela
A linha Ultra Braids tem três produtos: Shampoo Spray (300 ml, R$ 32,99), Condicionador para Fibras Orgânicas (300 ml, R$ 29,99) e Gel Tônico Alívio e Fortalecimento (50 ml, R$ 39,99). A proposta é cobrir a rotina: limpar sem acumular resíduo, desembaraçar a fibra e aliviar a coceira com um derivado de mentol.
O preço é o primeiro recado. Hoje, os sprays específicos para tranças nos grandes marketplaces brasileiros são, em geral, importados e custam entre R$ 170 e R$ 240. O segundo recado é o canal: a linha chega pelas Consultoras de Beleza Avon, uma rede de 1,5 milhão de revendedoras segundo a marca, e pelo e-commerce. É um cuidado que literalmente bate à sua porta.
O lançamento integra a Plataforma de Beleza Negra da marca, que estreou no primeiro semestre de 2026 com o hidratante facial Avon Care Radiância e Luminosidade, para peles pretas e pardas. “Nossos times de pesquisa buscam compreender as necessidades de diferentes grupos populacionais (…), sobretudo da população negra, que ainda tem pouca oferta cosmética de produtos específicos, como cabelos trançados”, afirma Edjane Lima, gerente e cientista de P&D da Avon.
Há também uma leitura de negócio. Em março, a Avon se reposicionou como Femtech e busca se reconectar com novas gerações. Pensar de forma inclusiva é um passo importante para a consolidação desse pensamento.
A trança como padrão
A construção de um sistema antirracista requer muitas etapas. Mas, considerando o atual mercado, já avançamos muito. Não temos mais que importar tudo, os produtos estão sendo feitos pensando no nosso cabelo e nas nossas necessidades e já estamos cada vez mais presentes em campanhas e nos lugares. A Ultra Braids é mais um passo nessa direção.
O próximo passo, para a Avon e para o resto da indústria, é caminhar ao lado de quem construiu esse conhecimento primeiro. As trancistas criaram a rotina, formaram clientes e sustentaram esse mercado por décadas. Quanto mais a indústria andar com elas, mais o cuidado com tranças deixa de ser nicho e passa a ser o que sempre foi: beleza brasileira. Porque muito da Pesquisa & Desenvolvimento pode avançar quando esse setor acessa a maior das tecnologias: a ancestral.
Fontes
Release Avon Ultra Braids (outubro de 2026) Billero & Miteva — Traction alopecia: the root of the problem (CCID, 2018) Agência Brasil — pesquisa Trilhas de Impacto (2023) EPI — 30 estados com o CROWN Act Poder360 — Censo 2022: 55,5% pretos ou pardos Mundo do Marketing — “O Consumo Invisível da Maioria” Brazil Journal — DataRaça/Akatu, consumo negro Diário do Nordeste — reconhecimento da profissão de trancista A Tarde — trancista na CBO Alma Preta — trancistas (2025) Alesp — parecer sobre o PL 1292/2025 CNN Brasil — Cécred lança linha para tranças CNN Brasil — tranças no BBB25 Fast Company Brasil — cabelo cacheado tipo exportação Forbes Brasil — reposicionamento da Avon Magazine Luiza — sprays para tranças










