O senador Flávio Bolsonaro (PL) se tornou na terça-feira (28/10) o mais novo expoente do bolsonarismo a fugir do Brasil. Depois de um dia de mistério na imprensa nacional e estrangeirasobre o seu paradeiro, ele pousou nesta quarta em Miami, no estado da Flórida, nos Estados Unidos, onde deverá receber asilo político do presidente Donald Trump.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro repete os passos do pai, que ensaiou uma fuga ao deixar o Brasil após ser derrotado nas urnas em 2022.
Também o patriarca do clã Bolsonaro embarcou para os EUA a dois dias da posse de Luiz Inácio Lula da Silva. Ele evitou, assim, passar a faixa presidencial ao sucessor, um fato inédito desde a redemocratização. O então presidente já era investigado pela Justiça.
A sua saída gerou especulações de que ele queria evitar estar no país quando terminasse o mandato, embora não tivesse sido proibido de deixar o Brasil, como é o caso de Flávio. Ele retornaria ao Brasil após 89 dias, em março de 2023.
Mas, desde 2020, várias outras figuras da extrema direita já foram viver no exterior por tempo indefinido. Todos eles viajaram, clandestinamente ou não, para escapar da Justiça, e o governo brasileiro corre atrás de extradições.
Relembre abaixo os casos mais marcantes de bolsonaristas que já fugiram do Brasil.
Eduardo Bolsonaro, em campanha nos EUA
O agora ex-deputado federal pelo PL de São Paulo foi o primeiro do clã a se estabelecer por tempo indefinido nos Estados Unidos. Ele deixou o Brasil em março de 2025 e pediu afastamento do cargo de parlamentar.
Eduardo alegava que corria risco de ser preso pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Não havia, entretanto, ordem de prisão contra ele à época da sua saída.
Num vídeo gravado a apoiadores para anunciar a decisão de ficar nos EUA, Eduardo chamou a decisão de “a mais difícil da sua vida”. O filho 03 já investia no discurso de perseguição política que agora se espera também do seu irmão Flávio.
Meses depois, em novembro de 2025, o STF tornaria Eduardo réu sob a acusação de coação. A acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR) era que Eduardo vinha articulando sanções dos EUA contra o Brasil para evitar a condenação do pai.
O STF o condenou pelo crime em junho de 2026, sem que Eduardo tenha se apresentado à Justiça. Ele é agora considerado foragido e vive no estado do Texas.
Carla Zambelli, presa na Itália
A então deputada federal pelo PL de São Paulo fugiu para a Itália em maio de 2025. Dias antes, ela havia sido condenada a dez anos de prisão pelo STF por ter cometido um ataque hacker contra o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Assim como Flávio, Zambelli atravessou a fronteira com a Argentina, que não exige apresentação de passaporte, para então seguir viagem à Flórida, nos EUA, e depois à Itália.
Três meses mais tarde, ela seria ainda condenada uma segunda vez pelo Supremo: cinco anos e três meses de prisão pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo.
A condenação se referia ao episódio em que ela sacou uma arma de fogo e perseguiu o jornalista Luan Araújo às vésperas do segundo turno das eleições de 2022.
Foragida da Justiça brasileira, Zambelli tem cidadania italiana e, por isso, chegou a dizer que estaria protegida da extradição.
Mas ela acabou localizada e presa por autoridades italianas em julho de 2025, uma vez que seu nome estava na lista de difusão vermelha da Interpol. Ela saiu da prisão em maio de 2026 e, desde então, tenta na Justiça italiana evitar a extradição.
Neste ano, a Justiça italiana chegou a autorizar a extradição de Zambelli ao Brasil mas, depois, a decisão foi anulada.
Alexandre Ramagem, pego pelo ICE
Em setembro do ano passado, o então deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro fugiu do país para evitar o cumprimento da pena de 16 anos de prisão pela trama golpista no governo de Jair Bolsonaro.
Durante a investigação sobre o caso, ele foi proibido pelo STF de sair do Brasil. Segundo a Polícia Federal, Ramagem (também ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência) fugiu pela fronteira com a Guiana e embarcou para os Estados Unidos com passaporte diplomático, que não estava apreendido.
A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados declararia, em dezembro de 2025, a cassação do mandato de Ramagem.
Em abril deste ano, ele chegou a ser preso pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) de Trump e levado a um centro de detenção na Flórida. Ele foi liberado dois dias depois.
Segundo a PF, Ramagem foi detido por questões migratórias. Ele estaria esperando a resposta para um pedido de asilo político nos EUA.
O governo brasileiro apresentou às autoridades dos Estados Unidos um pedido de extradição, que ainda está pendente de decisão.
Silvinei Vasques, entregue pelo Paraguai
Outro condenado pelo STF no julgamento da trama golpista, o ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF) fugiu na noite de Natal do ano passado para o Paraguai.
De lá, ele pretendia tomar um voo para El Salvador, mas foi preso em Assunção quando tentava embarcar. Acabou entregue à PF dois dias depois da fuga, na Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Ciudad del Leste.
Vasques havia sido sentenciado a 24 anos e seis meses de prisão por crimes contra a democracia. Ele cumpria prisão domiciliar em Santa Catarina quando a PF recebeu um aviso de rompimento de sua tornozeleira eletrônica, que usava como medida cautelar desde agosto de 2024.
O ex-diretor da PRF compunha o “núcleo 2” da trama golpista. Segundo a PGR, ele era responsável por “gerenciar ações da organização criminosa” quando ocupava a chefia da corporação.
O STF acatou a tese de que Vasques, apoiador explícito do bolsonarismo, instituiu operações de fiscalização da PRF no segundo turno da eleição presidencial de 2022, com o objetivo de dificultar a circulação de eleitores em regiões majoritariamente favoráveis a Lula.
Allan dos Santos, o primeiro fugitivo
O blogueiro bolsonarista fugiu para os EUA em 2020, quando era alvo de uma investigação no âmbito do inquérito das fake news, então sob a relatoria de Moraes.
Assim como mais tarde faria Eduardo, ele justificou a saída afirmando que tinha como objetivo denunciar internacionalmente o STF. Moraes determinaria a sua prisão preventiva no ano seguinte. Desde então, o blogueiro é considerado foragido.
A PF concluiu que Santos, “a pretexto de atuar como jornalista”, se tornou um dos organizadores de um movimento responsável por ataques à Constituição, aos poderes de Estado e à democracia.
Allan continuou suas atividades nos Estados Unidos. Ele teria se associado a pessoas ligadas à invasão do Capitólio, a sede do Congresso americano, que tentaram reverter à força a derrota de Trump nas urnas em 2020.
Oswaldo Eustáquio, blogueiro na Espanha
O também blogueiro ligado ao bolsonarismo fugiu para a Espanha em 2023. Ele tinha mandado de prisão em aberto e deixou o Brasil quando era investigado por impulsionar ataques extremistas contra o STF e o Congresso por meio das redes sociais.
Eustáquio participou dos acampamentos em Brasília que pediam um golpe de Estado após a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas. Nesta semana, o STF aceitou denúncia contra ele por associação criminosa.
Ele teria sido abrigado no Palácio da Alvorada no governo Bolsonaro, porque temia ser preso.
Em 2025, a Justiça da Espanha negou um pedido de extradição pelo governo brasileiro, afirmando que ele era alvo de uma investigação com “motivação política”.
ht/le (Agência Brasil, ots)








