Depois de um primeiro semestre marcado pelo avanço dos abates, o mercado pecuário começa a dar sinais de mudança. Produtores estão mantendo mais fêmeas nas propriedades para reprodução, reduzindo o número de matrizes enviadas aos frigoríficos.
Esse movimento deve diminuir a oferta de animais prontos para o abate nos próximos meses. Ao mesmo tempo, a expectativa de novas compras pelos Estados Unidos e pela China aumenta a disputa pelo gado disponível e abre espaço para a valorização da arroba.
O impacto pode chegar também aos supermercados. Com menos carne disponível no mercado interno, analistas projetam preços maiores para o consumidor ao longo deste semestre e em 2027.
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Fêmeas deixam os frigoríficos e ficam nas fazendas
A participação das fêmeas entre os bovinos abatidos em unidades com Serviço de Inspeção Federal (SIF) caiu de 44,7% em fevereiro para 32,1% em agosto.
A diferença também apareceu nos resultados de julho. Enquanto o abate total de bovinos recuou 22%, o número de fêmeas enviadas aos frigoríficos diminuiu 32%, segundo a Safras & Mercado.
O movimento acontece porque os preços mais altos dos bezerros e de outros animais jovens tornaram a reprodução mais atrativa. Em vez de vender as matrizes para o abate, parte dos pecuaristas passou a mantê-las no rebanho para produzir novos animais.
“Já começou a retenção de matrizes, com uma leve reversão do ciclo produtivo”, afirmou Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Segundo o professor, a retenção deve ganhar ainda mais força até o fim do ano. Alcides Torres, diretor-geral da Scot Consultoria, também acredita que a presença de fêmeas nos abates continuará diminuindo nos próximos meses e ao longo de 2027.
Mercado futuro já projeta arroba mais cara
Os contratos futuros negociados na B3 já mostram que o mercado espera preços mais altos. Na sexta-feira (11), o contrato com vencimento no fim de setembro fechou cotado a R$ 358,55 por arroba.
Para outubro, a cotação chegou a R$ 377,40. Já o vencimento de janeiro de 2027 encerrou o pregão a R$ 385,30 por arroba.
No mercado físico, porém, os preços ainda apresentam estabilidade. Em Araçatuba, no interior de São Paulo, a arroba estava cotada a R$ 345 na sexta-feira, mesmo valor registrado no início de setembro. Desde janeiro, a valorização acumulada chega a 10,6%.
O indicador Cepea/Esalq também permaneceu estável, em R$ 349,50 por arroba. No acumulado de setembro, a alta se aproxima de 1,5%.
Estados Unidos abrem espaço para a carne brasileira
Outro fator que pode sustentar os preços é a maior demanda internacional. Os Estados Unidos ampliaram temporariamente em 300 mil toneladas o volume de carne bovina que poderá entrar no país com tarifa reduzida durante 90 dias.
A medida começou a valer em 1º de setembro e permite a importação de até 100 mil toneladas por mês. O produto será destinado principalmente à fabricação de carne moída e deverá chegar ao mercado americano com preço 25% menor.
O Brasil pode vender até 50 mil toneladas mensais nessa janela, segundo estimativa de Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
China também deve voltar às compras
Além disso, os frigoríficos brasileiros também se preparam para retomar a produção destinada à China durante o último trimestre. A estratégia é embarcar a carne ainda em 2026 para que as cargas cheguem ao mercado chinês em janeiro e entrem na cota de 2027.
O limite destinado ao Brasil sobe de 1,106 milhão de toneladas em 2026 para cerca de 1,128 milhão de toneladas em 2027. Acima da cota, a carne fica sujeita a uma tarifa adicional de 55%.
A expectativa de retomada das compras chinesas já influencia as decisões dentro das propriedades. Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, parte dos produtores reduziu os confinamentos no terceiro trimestre e deve concentrar a terminação dos animais nos últimos meses do ano.
Alta encontra limite no consumo das famílias
A combinação entre menos animais para abate e maior procura internacional favorece o pecuarista, mas existe um limite para a valorização: a capacidade de compra do brasileiro.
“A tendência para este semestre é que o boi suba e o preço da carne para o consumidor também”, disse Torres.
O consultor acredita que o avanço será gradual, sem saltos repentinos, devido ao tamanho do rebanho brasileiro. Uma valorização exagerada poderia reduzir o consumo e fazer com que mais famílias trocassem a carne bovina por frango, suíno e outras proteínas.
“Tem gente que liga perguntando se a arroba vai a R$ 400 ou R$ 450. Eu respondo que, se for, o consumo cai”, explicou. “Não pode subir muito, ou o consumidor vai para a carne de frango e outras alternativas muito boas.”
Iglesias também prevê menor disponibilidade do produto no país.
“Temos uma perspectiva de elevação dos preços da carne bovina, e isso é consequência desse processo de menor oferta interna. Vai ter menos gado para abater. Isso vai resultar em menor oferta doméstica de carne bovina”, afirmou.
A suspensão das compras pela União Europeia não deve impedir o avanço das cotações. O bloco responde por cerca de 3% a 4% das exportações brasileiras do produto. Apesar da participação menor, o mercado europeu é considerado uma vitrine e suas exigências podem influenciar outros compradores.
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