MENU

O que a vaca come pode mudar a qualidade do leite?

walmir-banner01
Shadow

O leite que chega à mesa começa muito antes da ordenha. E aquilo que a vaca encontra no pasto pode fazer diferença até na composição final do alimento.

Um estudo realizado na Nova Zelândia encontrou alterações na gordura do leite produzido por vacas alimentadas em pastagens com maior diversidade de plantas. Além disso, os pesquisadores observaram que essa mudança ocorreu sem redução significativa na produção de leite.

  • Língua eletrônica detecta resíduos de três antibióticos no leite de vaca e de cabra
  • Sapato ‘pata de vaca’ vira tendência entre fashionistas no Brasil

A descoberta reforça uma discussão que começa a ganhar espaço na pecuária leiteira: a pastagem pode fazer mais do que simplesmente alimentar o animal. Dependendo das espécies disponíveis e do manejo adotado, ela também pode influenciar características do produto que sai da fazenda.

Cientistas acompanharam 90 vacas

Foto: Lincoln University

O estudo acompanhou 90 vacas leiteiras durante a temporada de produção de 2023/24 na Nova Zelândia.

Os pesquisadores dividiram os animais em três grupos. Dessa forma, conseguiram comparar um sistema convencional de alimentação com modelos que utilizavam pastagens mais diversificadas.

No sistema tradicional, predominavam espécies bastante conhecidas da pecuária neozelandesa, como azevém e trevos.

Já nas áreas diversificadas, a variedade era muito maior. Algumas pastagens reuniam até 16 espécies, entre gramíneas, leguminosas e outras plantas.

Foi justamente nessa comparação que apareceram diferenças na composição do leite.

Gordura do leite apresentou mudanças

Qualidade do leite pode sofrer impacto da alimentação das vacas.
Foto: Reagro – Divulgação

Entre as vacas mantidas no sistema diversificado com manejo regenerativo, a concentração total de ácidos graxos poli-insaturados ficou 15% maior em relação ao sistema convencional.

Além disso, a concentração de ácido linoleico aumentou 13%. Ao mesmo tempo, o ácido palmítico apresentou redução de aproximadamente 6%.

Os números são importantes porque mostram que a alimentação do rebanho não interfere apenas na quantidade produzida. Ela pode, também, provocar alterações mensuráveis na composição da gordura presente no leite.

Por outro lado, um dos resultados mais interessantes apareceu justamente onde praticamente nada mudou: no volume produzido.

A produção média ficou próxima de 14,8 quilos de leite por vaca ao dia, sem diferença estatisticamente significativa entre os sistemas analisados.

Ou seja, nas condições avaliadas pelo estudo, diversificar o pasto alterou componentes do leite sem provocar perda relevante de produtividade.

Por que o pasto faz diferença?

Rebanho de vacas leiteiras distribuído em área de pastagem usada em pesquisa agropecuária.
Foto: Massey University

A explicação começa na própria variedade de alimentos disponíveis para o animal.

Uma pastagem formada praticamente pelas mesmas espécies oferece um perfil relativamente uniforme de nutrientes. Já uma área diversificada coloca à disposição das vacas plantas com diferentes níveis de fibras, proteínas, gorduras e compostos naturais.

Consequentemente, muda também aquilo que chega ao sistema digestivo do animal.

Como os bovinos são ruminantes, boa parte dessa transformação acontece no rúmen, onde microrganismos participam intensamente da digestão. Assim, mudanças na dieta podem influenciar processos metabólicos que, posteriormente, aparecem na composição do leite.

No entanto, isso não significa que simplesmente plantar mais espécies seja suficiente para produzir um leite diferente.

Manejo também entra nessa conta

O Agro em Campo explica: diversidade de pastagem e manejo precisam ser analisados em conjunto.

Os próprios resultados indicam que a resposta dos animais depende da composição das áreas, da disponibilidade das plantas e da forma como o rebanho utiliza o pasto.

Além disso, o estudo foi realizado dentro das condições específicas da pecuária leiteira da Nova Zelândia. Portanto, não é possível transportar automaticamente os mesmos resultados para propriedades brasileiras, onde clima, solo, raças e sistemas produtivos são diferentes.

Ainda assim, o trabalho levanta uma questão importante para a pecuária.

Durante décadas, a discussão sobre alimentação esteve fortemente concentrada em produtividade, custo e ganho de eficiência. Agora, pesquisas também começam a investigar se aquilo que o animal come pode influenciar características do alimento destinado ao consumidor.

Do pasto para a mesa

Vaca leiteira em pastagem durante pesquisa sobre alimentação do rebanho e qualidade do leite.
Foto: Lincoln University

Pesquisadores da Lincoln University, também na Nova Zelândia, avançaram em outra frente dessa discussão. Eles investigam se diferentes sistemas de alimentação podem provocar alterações percebidas até no sabor e na textura do leite.

Esse tipo de pesquisa ajuda a aproximar dois pontos que normalmente aparecem separados: o manejo dentro da fazenda e a experiência do consumidor.

Por enquanto, ainda são necessários novos estudos para determinar a dimensão desses efeitos e verificar se eles se repetem em outros sistemas de produção.

Entretanto, a mensagem deixada pelos primeiros resultados é clara: o pasto pode ter influência que vai além da porteira.

Aquilo que a vaca escolhe para comer começa no campo, passa pelo rúmen e pode terminar dentro do copo de leite colocado sobre a mesa.

The post O que a vaca come pode mudar a qualidade do leite? appeared first on Agro em Campo.

PUBLICIDADE