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Charolês: conheça a raça francesa que conquistou a pecuária brasileira

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A cidade de Charolles, a cerca de 100 km a nordeste de Lyon, é a antiga capital da região de Charolais, que deu nome à raça. O Charolês originou-se no centro-oeste e sudeste da França, mais precisamente em Charolais e Brionais, no Departamento de Saône-et-Loire, e foi desenvolvido a partir do século 18. A origem do gado remonta à Idade Média, e a raça ficou conhecida por produzir cortes macios, marmorizados e saborosos.

A raça ancestral provavelmente compartilhava características com o gado Simental, da Suíça. E os animais que deram origem à raça foram cruzados, em grau limitado, com exemplares brancos da raça Shorthorn por volta de 1863, um cruzamento que buscava velocidade de crescimento e qualidade de carne. O Charolês foi reconhecido oficialmente em 1770 como raça pura distinta na região de Charolles.

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Originalmente, o animal tinha tripla aptidão; carne, leite e trabalho. Mas apesar dessa vocação múltipla, se destacou como excelente fornecedor de carne e animal de tração, por ser musculoso e sem tendência a acumular gordura na superfície. A melhoria da qualidade permitiu que, a partir de 1920, o Charolês passasse a ser criado unicamente como gado de corte.

A chegada ao Brasil e a formação do maior rebanho do mundo

Os primeiros animais da raça desembarcaram no Brasil em 1879. Embora outras fontes registrem uma chegada mais expressiva ao Rio Grande do Sul em 1885, quando o governo imperial importou dois reprodutores da França. E os confiou aos estancieiros Heleodoro de Azevedo e Souza e Mancio de Oliveira, ambos de grande renome na época.

O crescimento da raça no país ganhou força no início do século 20. Em 1911, um criador chamado Cypriano de Souza Mascarenhas importou dois touros da França. Foi  primeira importação de Charolês promovida por um particular no Brasil. E ao longo dos anos formou o que se tornaria o maior rebanho do mundo da raça, com 10 mil cabeças. Em 1927, foi aberto no Brasil o Herd Book da raça, com dois ventres importados da França. E o primeiro produto puro nascido e registrado no país foi a fêmea “Arara”, em maio de 1928.

 

O Rio Grande do Sul foi o estado de entrada da raça. E seu crescimento e popularização foram tão expressivos que ali se encontra o maior rebanho de Charolês do mundo. A raça expandiu-se para todos os estados brasileiros, chegando ao Norte e Nordeste em 1962, quando foi introduzida na Bahia, via Vitória da Conquista, expandindo-se depois para Sergipe, Ceará, Maranhão e Pará. Hoje, os principais criadores da raça no Brasil estão concentrados no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Embora o rebanho nacional esteja estimado em 100 mil animais puros por cruzamento (PC) e 50 mil puros de origem (PO).

A linhagem brasileira, bastante utilizada no Centro-Oeste e no Nordeste para cruzamento industrial com o zebu, resulta da combinação de três padrões distintos: o francês, com animais de maior massa muscular; o inglês, com gado mais alto e comprido; e o argentino, intermediário entre os dois tipos.

Características físicas: porte, musculatura e baixo acúmulo de gordura

O Charolês é um bovino de origem francesa, cujo nome deriva da região de Charolais, cuja principal localidade é Charolles. A raça se caracteriza pela cor branca ou creme, grande peso, desenvolvimento muscular pronunciado e ausência de acúmulo de gordura. Além de precocidade e especialização para a produção de carne, com destaque para o alto rendimento de carcaça.

Em termos de estrutura, é um bovino de porte médio a grande, com corpo largo e anca e garupa também largas, sendo considerado bastante corpulento. O peso varia entre 650 kg e 800 kg nas fêmeas adultas e entre 950 kg e 1.200 kg nos machos adultos. Isso embora outras referências apontem faixas um pouco menores, de 600 kg a 800 kg nas vacas e 800 kg a 1.100 kg nos touros.

O animal apresenta musculatura excelente, com volumosa linha dorso-lombar e pernas fortes, ideais para sustentar cargas elevadas. Além de cabeça pequena e curta, com fronte larga, retilínea ou levemente côncava. Quanto à pelagem, o pelo pode ser curto no verão e crescer no inverno, com coloração que varia do branco ao branco-creme, sendo indesejáveis manchas escuras. Outras fontes também descrevem variações para fumaça, vermelho e preto. Existe ainda a variedade Polled Charolês, ou Charolês mocho, que costuma ter esqueleto mais fino que o tipo original com chifres. Criadores ingleses e franceses usaram a raça britânica Lincoln Red para introduzir esse fator mocho.

Desempenho produtivo: o principal trunfo da raça

O ponto forte do Charolês está justamente na relação entre volume de carne e qualidade de carcaça. A capacidade de produzir grande massa muscular com pequena capa de gordura é o principal diferencial da raça. Isso, associada à rusticidade e à adaptabilidade a diferentes climas, a torna bastante indicada para atender às exigências do mercado atual de carne.

Em números, os novilhos comuns rendem de 58% a 62% no abate, com boa distribuição de gordura na carcaça, além de excelente ganho de peso em confinamento. Já na reprodução, as fêmeas costumam ter a primeira cria aos três anos de idade quando recebem manejo alimentar adequado. Com novilhos nascendo por volta de 45 kg e novilhas com cerca de 42 kg. E os partos gemelares são relativamente comuns na raça. Quanto à produção leiteira, embora não seja o foco da seleção atual, a vaca Charolês produz cerca de 3 mil litros de leite por lactação, volume suficiente para suprir as necessidades do bezerro.

A versatilidade também é um diferencial citado com frequência pelo setor. A raça é extremamente adaptável em termos de manejo, cruzamentos com outras raças e alimentação. Quem acompanha o segmento destaca essas características. A capacidade de adaptação a qualquer ambiente de criação, inclusive, levou o Ministério da Agricultura e a Embrapa a escolherem o Charolês como raça formadora do Canchim, conhecido como o “precoce brasileiro”.

Presença global e uso em cruzamentos industriais

A relevância do Charolês não se limita ao Brasil. Atualmente, 68 países dos cinco continentes, sob os mais variados climas, criam a raça, considerada privilegiada nesse sentido. Nas Américas, Estados Unidos e Canadá mantêm plantéis ricos e selecionados, com destaque em exposições oficiais, enquanto a Argentina desenvolveu inclusive um padrão racial próprio e o Uruguai tem rebanho bastante desenvolvido, com influência direta na formação do plantel brasileiro.

No Brasil, a linhagem nacional combina sangue francês,de animais com maior massa muscular, inglês, de animais mais altos e compridos, e argentino, resultando em um bovino de grande porte, boa musculatura e forte aptidão para cruzamentos industriais com raças zebuínas, como o nelore e o brahman. O resultado agrada em precocidade, adaptação, rendimento de carcaça e no paladar dentro e fora do país. E tem bons índices de marmoreio, maciez, suculência e sabor, características que atendem inclusive linhas de carnes premium no mercado brasileiro.

O trabalho de melhoramento genético segue ativo no país. Segundo a Associação Brasileira de Criadores de Charolês (ABCC), o Charolês brasileiro passa por rigoroso processo de seleção genética que busca qualificar a raça para os padrões da pecuária de corte moderna. Com participação no Promebo — Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne, conduzido pela Associação Nacional de Criadores Herd Book Collares em parceria com a Embrapa, que avalia 14 características distintas dos animais.

Uma raça que resiste ao tempo

Entre importações históricas, cruzamentos estratégicos e décadas de seleção genética, o Charolês consolidou um espaço próprio na pecuária brasileira. O de raça capaz de entregar volume de carne com qualidade de carcaça, sem abrir mão da rusticidade que permite sua criação em climas tão diferentes quanto os do Sul e do Nordeste do país.

Rivalizando com raças como o Angus em protagonismo produtivo, o Charolês segue sendo peça central tanto na criação em puro sangue quanto nos cruzamentos industriais que abastecem o mercado de carne bovina brasileiro.

Charolês premia grandes campeões e reforça avanço genético na Fenagen

A raça Charolês encerrou a programação de julgamentos da 3ª Feira Nacional de Genética Promebo (Fenagen) na sexta-feira (3), no Parque da Associação Rural de Pelotas (RS). A avaliação ocorreu na pista Luiz Alberto Fries e destacou a evolução genética dos animais e o papel estratégico do Promebo na pecuária de corte.

Entre os destaques da pista, a terneira FIV96 (Box 97), da Estância do Batovi, de São Gabriel (RS), conquistou o título de Grande Campeã Terneira, com Índice Fenagen de 88. Já o prêmio de Grande Campeã Fêmea Jovem ficou com a FIV111, da Cabanha Pelo Branco, de Herval D’Oeste (SC), que alcançou índice de 87,24.

Na categoria machos, o terneiro 2516 (Box 106), da Cabanha Tarumã JHBD, de Camaquã (RS), garantiu o título de Grande Campeão Terneiro, com índice de 91. O título de Grande Campeão Touro Jovem foi para o exemplar FIV113 (Box 110), também da Estância do Batovi, com índice de 84,94.

A jurada Luiza Ramos Ribeiro destacou o alto nível dos animais apresentados e reforçou que a avaliação considerou tanto características fenotípicas quanto o potencial genético. Segundo ela, o uso do Promebo tem papel decisivo na evolução da raça.

“Além do fenótipo, avaliamos o genótipo, resultado de um trabalho desenvolvido a campo com apoio do Promebo, uma ferramenta essencial tanto para rebanhos de pedigree quanto comerciais”, afirmou.

Luiza também ressaltou a relevância da raça Charolês para os mercados nacional e internacional. Ela elogiou o trabalho dos criadores e das equipes envolvidas no manejo dos animais. E destacou a consistência genética observada na pista.

“Os animais refletem o trabalho e a dedicação dos criadores e profissionais que atuam diariamente no campo. Entregando genética de alto nível para a pecuária de corte”, concluiu.

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