A família real britânica sempre esteve envolvida em diversas controvérsias ao longo dos anos. Desde a abdicação de Eduardo VIII até a morte da princesa Diana, passando pela decisão do príncipe Harry e de Meghan Markle de se afastarem oficialmente das funções reais, os Windsor parecem estar constantemente no centro das atenções da mídia.
Muito antes desses acontecimentos, porém, a família já havia sido cercada por um mistério ainda pouco conhecido: o desaparecimento da figura do jovem príncipe John, que acabou sumindo do olhar público e levantando inúmeras dúvidas sobre o seu destino.
Quem foi o Príncipe John?
O Príncipe John nasceu em 12 de julho de 1905 e foi o quinto filho do rei George V e da rainha Mary. Seu pai, ainda príncipe de Gales na época do nascimento, tornou-se rei em 1910, o que colocou John na quinta posição na linha de sucessão ao trono britânico.
Grande parte de sua infância foi vivida longe dos olhos do público, na propriedade real de Sandringham, especialmente na casa conhecida como Wood Farm. . O próprio rei George V teria comentado, em tom de franqueza ao presidente Theodore Roosevelt, que todos os filhos eram obedientes, “exceto John”, referência ao seu temperamento mais livre e espontâneo na infância.
Aos quatro anos de idade, o Príncipe John já era descrito como “encantador” (winsome) e também como “dolorosamente lento”, uma referência à percepção de seu desenvolvimento mais tardio em comparação aos irmãos. Por questões de saúde, ele não pôde comparecer à coroação de seu pai.
Apesar dessas limitações, o Príncipe John ainda chegou a aparecer em público em algumas ocasiões durante a infância e a pré-adolescência, mantendo certa presença simbólica na vida da família real até aproximadamente os 11 anos de idade. Depois disso, sua condição de saúde se agravou, e ele passou a viver de forma cada vez mais isolada da vida pública da monarquia.
Epilepsia e o afastamento da vida pública

O Príncipe John sofria de epilepsia, uma condição neurológica que, na época, era pouco compreendida e cercada de estigma. Com o avanço da doença, suas crises se tornaram mais frequentes e difíceis de controlar, o que levou a família real a tomar uma decisão discreta, mas definitiva: afastá-lo gradualmente da vida pública.
Inicialmente, ele ainda aparecia em algumas ocasiões simbólicas e era mantido próximo dos irmãos na propriedade de Sandringham.
A família real inicialmente esperava que as crises de epilepsia do Príncipe John diminuíssem com o tempo.
À medida que sua epilepsia avançava, a decisão de afastá-lo ainda mais da vida pública tornou-se mais evidente, refletindo tanto as limitações médicas da época quanto o desejo da família real de protegê-lo da exposição pública.
A prioridade passou a ser sua saúde e o isolamento em um ambiente mais controlado e protegido, longe da pressão e da exposição da corte.

Esse afastamento não foi amplamente divulgado na época. Pelo contrário, a família real optou por manter sua condição em silêncio, o que contribuiu para que o Príncipe John desaparecesse do imaginário público britânico ainda em vida. Com o tempo, ele passou a viver quase completamente recluso, acompanhado apenas por cuidadores e familiares próximos.
No entanto, à medida que sua condição se tornava mais evidente e persistente, o público passou a perceber que havia algo seriamente errado com sua saúde.
Com o tempo, seu afastamento da vida pública tornou-se cada vez mais visível, resultado tanto das limitações médicas da época quanto da escolha da família real de protegê-lo da exposição e do escrutínio público.
Essa percepção aumentou especialmente após ser anunciado que ele não seria enviado para um internato e que não receberia uma educação semelhante à de seus irmãos. No contexto da família real britânica, onde a educação formal e a preparação para funções públicas eram esperadas essa decisão era incomum e indicava discretamente que a saúde de John exigia um caminho diferente e mais protegido.,
Durante a Primeira Guerra Mundial, o Príncipe John passou a ver seus pais cada vez menos, já que eles estavam frequentemente ocupados com compromissos oficiais da monarquia. Da mesma forma, seus irmãos estavam ou em internatos ou envolvidos em atividades militares.
Nesse período, John foi se afastando progressivamente da vida pública. A sua presença tornou-se cada vez mais rara, e após 1913 nenhum retrato oficial dele foi encomendado, o que reforçou ainda mais seu desaparecimento do olhar público.

Por volta de 1916, as crises epilépticas do Príncipe John tornaram-se muito mais frequentes e intensas. Como consequência, quando tinha 11 anos, ele foi transferido para Wood Farm, perto de Sandringham, sendo separado da convivência regular com sua família.
Junto dele permaneceu Charlotte “Lala” Bill, sua dedicada babá, que assumiu os cuidados diários do Príncipe John durante esse período de isolamento.
As crises do Príncipe John continuaram a piorar. Sua babá, Charlotte “Lala” Bill, chegou a escrever: “não ousávamos deixá-lo com seus irmãos e irmãs, pois isso os perturbava muito, com os ataques ficando tão graves e frequentes.”
Apesar do avanço da doença, John ainda acompanhava a família real em algumas viagens, como as estadias em Balmoral, na Escócia. No entanto, ele era sempre mantido à distância dos demais membros da família e dos convidados.
Durante a Primeira Guerra Mundial, visitantes de Balmoral lembravam-se dele como uma figura distante, descrita como “remota”, que podia ser vista apenas ao longe, nos bosques, sempre acompanhado por seus próprios cuidadores e assistentes.

O Príncipe John já havia praticamente desaparecido da vida pública em 1917, quando foi transferido para Wood Farm. A partir desse momento, ele deixou de aparecer em fotografias oficiais da família,
O Príncipe John passou o Dia de Natal de 1918 com sua família em Sandringham. À noite, ele foi levado de volta a Wood Farm. Menos de um mês depois, em 18 de janeiro de 1919, o Príncipe John morreu durante uma grave crise convulsiva enquanto dormia.da.
Sua babá, Lala Bill, foi quem comunicou a morte à rainha Mary, que ficou profundamente abalada. No entanto, em seu diário, ela também escreveu que sentiu certo alívio, refletindo o sofrimento prolongado do filho: “A notícia me deu um grande choque, embora, para a pobre alma inquieta do menino, a morte tenha vindo como um grande alívio.”

Ele tinha apenas 13 anos. seu funeral foi realizado de forma extremamente privado.
Em 20 de janeiro de 1919, o jornal Daily Mirror noticiou a morte do Príncipe John, marcando a primeira vez que sua epilepsia e seu estado de saúde foram mencionados publicamente.
A doença do Príncipe John deve ter sido extremamente difícil e confusa para sua família. Segundo a biografia oficial do rei Eduardo VIII, o então Príncipe de Gales “mal o conhecia o irmão; e o via como pouco mais do que um incômodo lamentável”.
Em cartas pessoais, Eduardo também expressou sentimentos ainda mais duros. Após a morte de John, escreveu à sua amante Freda Dudley Ward dizendo que “sua morte é o maior alívio imaginável, ou aquilo pelo qual sempre rezamos em silêncio. Esse pobre menino havia se tornado mais um animal do que qualquer outra coisa e era apenas um irmão na carne, e nada mais”.
Essa postura pode ser entendida, em parte, pela diferença de idade entre eles, Eduardo era onze anos mais velho, e também pelo contexto da época, em que a epilepsia era profundamente mal compreendida. No início do século XX, a doença frequentemente era associada a transtornos mentais e carregava forte estigma social.
Dentro desse cenário, a família real ainda era influenciada por ideias tradicionais sobre “pureza de sangue” e hereditariedade. Qualquer condição considerada mental ou neurológica era vista com grande vergonha e, muitas vezes, tratada como algo a ser escondido do público.









