A decisão da União Europeia de tirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar animais destinados à alimentação humana e produtos de origem animal ao bloco provocou reações imediatas do governo e do setor produtivo.
O Ministério da Agricultura informou que buscará esclarecimentos junto às autoridades europeias e defenderá tecnicamente o sistema sanitário nacional.
Mas, para além da disputa diplomática e comercial, a medida traz um recado que o mercado internacional vem dando há anos: sustentabilidade, rastreabilidade e governança deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos para fazer negócios.
A decisão europeia está relacionada às exigências sobre o uso de antimicrobianos na produção animal. O tema, no entanto, está longe de ser uma novidade. A União Europeia vem endurecendo gradualmente seus critérios de importação, incorporando preocupações com segurança alimentar, origem dos produtos, responsabilidade ambiental e controle sanitário.
Por isso, talvez a maior armadilha seja tratar o episódio como uma surpresa. Não é. O bloco europeu vem sinalizando há bastante tempo que suas relações comerciais seriam cada vez mais condicionadas à capacidade dos países exportadores de comprovar, com dados e evidências, como produzem seus alimentos.
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Isso não significa que o agro brasileiro seja inferior ou incapaz de atender aos padrões internacionais. Pelo contrário. O Brasil é uma potência agropecuária reconhecida pela sua capacidade produtiva.
O problema é outro: o novo padrão global exige algo além da qualidade do produto final. Exige documentação, registros, auditorias e rastreabilidade ao longo de toda a cadeia.
Em outras palavras, não basta afirmar que as boas práticas existem. É preciso prová-las.
É preciso comprovar práticas sustentáveis
A especialista em ESG e vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli, Eliana Camejo, resume bem esse novo cenário. Segundo ela, a sustentabilidade deixou de ser discurso para se tornar critério comercial. “O mercado internacional quer evidências. Não adianta apenas declarar boas práticas. Sem registros, não há como comprovar”, afirma.
A mudança de mentalidade ainda representa um desafio para muitos produtores rurais, especialmente pequenos e médios, que frequentemente enxergam essas exigências como algo distante de sua realidade.
Mas essa percepção tende a custar caro. A pressão não ficará restrita aos grandes exportadores. Frigoríficos, cooperativas, tradings e varejistas deverão repassar essas demandas para toda a cadeia produtiva.
O ponto central, segundo Eliana, é que muitas dessas práticas já acontecem no campo, mas ainda de forma informal. O desafio agora é documentá-las.
Talvez a principal lição desse episódio seja que o debate sobre ESG no agronegócio precisa amadurecer.
Não se trata de ideologia, marketing ou tendência passageira. Trata-se de acesso a mercados, gestão de riscos e sobrevivência competitiva.
No comércio global de hoje, quem não consegue comprovar o que faz corre o sério risco de perder espaço, independentemente da qualidade do que produz.












