Um tubarão-dorminhoco foi filmado a 490 metros de profundidade na Fossa das Ilhas Shetland do Sul, na Antártida, em águas de cerca de 2 °C. Segundo pesquisadores, é a primeira vez que um tubarão é registrado tão ao sul e o primeiro exemplar da espécie filmado em seu habitat natural em todo o Oceano Austral.
A presença do animal em uma região onde tubarões não costumam ser vistos levanta a hipótese de que mudanças ambientais, como o aquecimento global, possam estar influenciando sua distribuição.
As imagens foram captadas por câmeras acopladas a equipamentos chamados “landers”, estruturas que descem até o fundo do mar com sensores e iscas para atrair animais que vivem na profundidade do oceano.
As imagens, divulgadas agora, foram obtidas durante a segunda etapa da Expedição Inkfish, realizada em fevereiro de 2025, missão científica dedicada a estudar a geologia, a biodiversidade e as condições do oceano na região.
Encontro inesperado
A geocientista marinha Heather Stewart, que liderou a etapa da expedição, relatou a surpresa ao rever as gravações.
“Algumas das imagens mais incomuns que capturamos foram a de encontrar um tubarão-dorminhoco a 490 metros de profundidade, o que certamente foi muito inesperado”, afirmou.
O animal tinha mais de dois metros de comprimento, segundo Stewart. “Não tem claspers, então deve ser fêmea. Temos quase certeza de que é o tubarão-dorminhoco-do-sul, que é Somniosus antarcticus. É bem raro ver esses animais por causa da profundidade em que vivem”, acrescentou o pesquisador assistente Dylan White-Kiely.
“Esses animais evoluíram para viver bastante tempo e, como muitos animais de profundidade, têm metabolismo muito lento, então podem ficar longos períodos sem comer, distribuindo a energia do alimento ao longo do tempo”, completou o pesquisador.
Heather Stewart destacou ainda que o registro altera o que se sabia sobre a área de ocorrência da espécie. “Em termos de distribuição geográfica, ele não tinha sido visto em águas antárticas. Este é o ponto mais ao sul em que parece ter sido encontrado”, afirmou.
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Água “mais quente” no oceano gelado
No momento do registro, a água marcava cerca de 2 °C a 490 metros de profundidade. De acordo com a equipe, essa faixa coincide com uma camada submarina relativamente mais quente, enquanto acima e abaixo as temperaturas ficam próximas ou abaixo de zero.
Esse “corredor” em torno dos 500 metros poderia permitir que os tubarões avançassem mais ao sul.
Os tubarões-dorminhocos, são predadores de águas profundas e podem viver entre 250 e 300 anos. Apesar do nome científico sugerir ligação com a Antártida, a espécie não costuma ser encontrada tão ao sul.
Os pesquisadores afirmam que o achado amplia o entendimento sobre a capacidade desses animais de tolerar ambientes extremos.
A região da Península Antártica é considerada uma das que mais aquecem no planeta, e a expedição também investigou mudanças na temperatura da água, no movimento das correntes e na evolução das geleiras submarinas.
Missão científica
A segunda etapa da Expedição Inkfish concentrou-se na Fossa das Ilhas Shetland do Sul, com estudos sobre geologia, oceanografia e biodiversidade.
Ao longo das duas fases da missão, a equipe realizou mapeamentos do fundo do mar, coletou amostras para análise de DNA ambiental e investigou formações deixadas pelo avanço e recuo do gelo ao longo de milhares de anos.
Além do tubarão-dorminhoco, os pesquisadores registraram outras espécies marinhas de profundidade, como lulas antárticas, águas-vivas, caranguejos e estrelas-do-mar.








