Uma parte da geleira que cobre as montanhas do Himalaia pode ter sido o ponto de partida da avalanche que desencadeou a enchente devastadora no Nepal. Imagens de satélite analisadas por especialistas indicam que a parte inferior de uma geleira se rompeu a cerca de 5.200 metros de altitude e despencou aproximadamente 1.200 metros até o fundo de um vale.
O material não era apenas gelo. A queda teria levado também grandes volumes de rochas e sedimentos para o rio Lhende, afluente do Bhote Koshi. A entrada repentina desse material no curso d’água é apontada como o possível gatilho da onda de água, lama e pedras que avançou pelo distrito de Rasuwa, na fronteira com a China.
A horrific scene of severe flooding at the Rasuwagadhi border point on the Nepal-Tibet border.
The strong currents wreaked havoc across the area, leaving 400 pilgrims and 105 Indian tourists also missing in the Nepal floods.#NepalFloods #Nepal #Rasuwa #FlashFlood #Floods pic.twitter.com/dwAX12Gj7l— Ravi Pandey🇮🇳 (@ravipandey2643) August 26, 2026
O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD) informou que cientistas do Nepal e da China investigam se uma avalanche de gelo e rocha em uma área de grande altitude provocou a enchente. A entidade classificou a avalanche no Lhende Khola como o gatilho suspeito, mas ressaltou que a causa ainda não foi confirmada.
O desastre já deixou 162 mortos e 484 desaparecidos no Nepal, segundo as informações mais recentes das autoridades. Entre os desaparecidos estão 391 estrangeiros. No Tibete, na China, outras três pessoas morreram e 265 estão desaparecidas.
A queda da geleira
O geólogo Dan Shugar, da Universidade de Calgary, em entrevista à Reuters, analisou imagens da Planet Labs e identificou o desprendimento da parte inferior da geleira. Segundo ele, a massa de gelo caiu de uma região a aproximadamente 5.200 metros para o vale, cerca de 1.200 metros abaixo.
Shugar afirmou que o material observado nas imagens é compatível com um grande colapso de gelo. Ele também apontou que o derretimento de neve registrado nas horas anteriores e possíveis obras na região estão entre os fatores que ainda precisam ser investigados. Não há, porém, confirmação de que o aquecimento do planeta tenha provocado diretamente o rompimento.
O professor e pesquisador de clima Rijan Bhakta Kayastha, também ouvido pela agência de notícias, avaliou que a avalanche de gelo pode ter caído sobre o Lhende e bloqueado o rio. A água teria se acumulado atrás da barreira antes de avançar pelo vale.
Imagens mostram o antes e depois
- Antes: imagens da Planet Labs registradas antes do desastre mostram a encosta e a área coberta por gelo e neve.
- Depois: os registros posteriores revelam uma grande quantidade de detritos e sedimentos espalhados pelo vale.
- A queda: a análise dos especialistas identificou o desprendimento na região de alta montanha que antecedeu a avalanche.
A mudança também aparece nas imagens de satélite das áreas atingidas pela enchente. Regiões que estavam verdes antes do desastre aparecem cobertas por lama, pedras e outros sedimentos depois da passagem da água.
O terremoto não foi confirmado
Nas primeiras horas após a tragédia, autoridades chegaram a considerar que um terremoto de magnitude 4,4 poderia ter provocado a avalanche.
A hipótese, porém, perdeu força. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) revisou a análise e concluiu que o sinal sísmico registrado na região foi produzido por um deslizamento de terra, e não por um terremoto tectônico.
O ICIMOD também informou que sinais sísmicos anormais foram registrados perto da área afetada, mas que os pesquisadores ainda analisavam se havia relação com o desastre. A entidade não estabeleceu uma ligação causal entre atividade sísmica e a enchente.
Como o gelo virou uma onda de destruição
A avalanche lançou uma grande quantidade de gelo, pedras e sedimentos no sistema do Lhende Khola e do Bhote Koshi. A força da água aumentou rapidamente enquanto a onda avançava pelo vale.
Segundo o ICIMOD, o nível do rio Trishuli, em Galchhi, subiu até 9 metros em apenas 30 minutos. Estações de monitoramento foram destruídas ou arrastadas pela enchente.
O distrito de Rasuwa, onde vivem cerca de 50 mil pessoas, concentra projetos hidrelétricos e fica em uma região montanhosa de difícil acesso. A enchente destruiu estradas, pontes e estruturas próximas aos rios.
Centenas de turistas e peregrinos que estavam na região também foram dados como desaparecidos. Muitos viajavam em direção ao Monte Kailash, no Tibete, um importante destino religioso.









