Senta que lá vem história, como era dito no adorável programa de TV Castelo Rá-Tim-Bum. Desta vez, falemos sobre um judeu francês que se tornou famoso à revelia e injustamente – e que, sem imaginar, semeou a criação do moderno Estado de Israel.
Visitemos o ano de 1894. Alfred Dreyfus, de 36 anos, um leal capitão do Exército francês, foi surpreendentemente acusado de transmitir informações sigilosas a um adido militar alemão. A acusação era tosca, baseada apenas em um documento escrito à mão e encontrado no lixo do adido, escrito com uma caligrafia que, afirmou-se, seria a Dreyfus.
O “Caso Dreyfus”, como tornou-se conhecido antes mesmo de ir a julgamento, ganhou fama meteórica.
O capitão judeu tornou-se, da noite para o dia, alvo de uma fenomenal campanha antissemita não apenas na mídia, mas nas ruas da França.
Não houve provas de sua atuação como espião; ainda assim, ele foi condenado por traição.
Dreyfus foi submetido a uma infame cerimônia pública em que foi destituído de sua espada, insígnias e patente. Foi enviado para uma ilha na Guiana Francesa para cumprir prisão perpétua.
A história não termina aqui.
Na época, o chefe dos Serviços de Inteligência da França, Georges Picquart, investigou o caso e descobriu que a caligrafia da tal carta não era de Dreyfus, mas de outro oficial, chamado Ferdinand Walsin Esterházy. Claro que Picquart se apressou para apresentar as provas ao Estado-Maior do Exército Francês.
Qual o resultado dessa iniciativa? Picquart foi preso durante um ano e, depois, expulso das Forças Armadas.
Veredito anulado
Essa é a parte da história que mais se conhece. No entanto, ela continua.
Dreyfus cumpriu mais de 10 anos de sentença, passados nas mais terríveis condições. Depois de uma longa guerra jurídica, em 1906 seu veredito foi anulado. Pasme: ele não só retornou ao exército, como também foi condecorado. Dreyfus lutou na Primeira Guerra Mundial.
Final feliz? Nem tanto. Afinal de contas, não bastasse a humilhação e a saúde fortemente afetada pelos anos de reclusão, o tempo deixou claro qual foi o real motivo de seu “afastamento”. Nada a ver com traição, mas sim com o “risco” que, caso sua carreira não fosse interrompida, Dreyfus teria alcançado um altíssimo posto no exército francês.
Imagine só: um judeu, meu Deus!, participando do alto escalão de um exército europeu.
Pulemos agora para 2025.
No dia 12 de julho, o presidente francês Emmanuel Macron decretou que todos os anos essa data será celebrada como “o dia anual de comemoração do Caso Dreyfus”. E hoje, dia 19 de novembro, o governo francês aprovou uma lei com o seguinte texto: “A nação francesa promove postumamente Alfred Dreyfus ao posto de general de brigada”.
É uma reparação histórica com poucos precedentes. E que, de alguma forma, nos deixa ainda mais confusos com relação ao que acredita Macron, que um dia reconhece um Estado Palestino (uma decisão puramente política, já que não tem nenhum efeito prático) e, no outro, faz uma lei que acaricia a difamada alma do judeu francês.
Quem diria.
A dívida dos judeus para com Dreyfus
Relatei acima fatos que ocorreram nos últimos 131 anos. Agora, pensemos no que NÃO teria acontecido no período caso esse evento vergonhoso não tivesse ocorrido na França.
É provável que a odiosa faceta do antissemitismo francês não fosse testemunhada pelo jornalista austro-húngaro Theodor Herzl, que estava então a trabalho em Paris como correspondente do jornal vienense Neue Freie Presse.

Também é provável que, sem testemunhá-la, Herzl não viesse com a “absurda” ideia de que aos judeus só havia uma possibilidade de salvação: contar com seu próprio Estado.
E tudo indica que, sem essa semente do conceito de autodeterminação judaica, não haveria a mobilização do Congresso Sionista Mundial, ocorrido na Basileia (Suíça) em 1897.
Dali à criação do moderno Estado judeu em Israel, terra ancestral do povo judaico foi um pulo. Um melhor, um longo, tumultuado, sofrido, heroico e por vezes humilhante pulo, que sobreviveu até mesmo ao Holocausto. E que continuou sobrevivendo em 1948, 1967, 1973, 1982… e a tantos outros anos fatídicos. Sobreviverá também ao de 2023, sem dúvida.











