Há partidas que terminam quando o árbitro apita. Outras seguem sendo disputadas por décadas. Argentina e Inglaterra nunca entram em campo apenas com onze jogadores de cada lado. Entram também fantasmas. Lembranças. Cicatrizes. Entram Maradona, a “Mão de Deus”, o gol do século, as Malvinas (ou Ilhas Falkland), o orgulho ferido.
É curioso como algumas rivalidades deixam de pertencer aos atletas e passam a ser propriedade da memória coletiva. Um garoto argentino de dez anos talvez nunca tenha visto Maradona jogar. Um menino inglês talvez conheça 1986 apenas pelos vídeos da internet. Ainda assim, ambos crescem sabendo que existe algo diferente quando essas camisas se encontram.
Virada nos minutos finais
Nesta quarta-feira, parecia que a Inglaterra, machucada pela eliminação com o gol de mão em 1986, escreveria um capítulo novo, com desfecho mais feliz. Anthony Gordon, aos nove minutos do segundo tempo, abriu o placar depois do cruzamento certeiro de Morgan Rogers pelo lado direito.
O tempo foi passando. Os ingleses vinham resistindo bem à pressão adversária e à presença do “pé frio” Mick Jagger no estádio. Mas, o treinador Thomas Tuchel recuou demais a equipe. Talvez não conheça a célebre frase de seu colega de profissão, o brasileiro Vanderlei Luxemburgo: “O medo de perder, tira a vontade de ganhar”.
E quando a Inglaterra mais precisou de seus protagonistas, eles desapareceram em campo. Harry Kane e Jude Bellingham passaram a maior parte do segundo tempo correndo atrás da bola e dos adversários, como espectadores de um jogo que pedia liderança.
“A bola pune” (mais uma frase de peso de um ex-treinador brasileiro: Muricy Ramalho). O futebol tem uma vocação irresistível para contrariar as expectativas. A Argentina virou. De novo. Com gols a partir dos 40 minutos da segunda etapa. Um legítimo tango dramático.
Se em 1986, o herói foi Maradona, quarenta anos depois coube a Messi conduzir a Argentina à classificação. Nem precisou de dois gols históricos, como “el pibe”. Bastaram duas assistências para levar a seleção albiceleste a mais uma final.
A identidade argentina não aceita representantes omissos na seleção. Enzo Fernández e Lautaro Martínez se encarregaram de marcar os gols. Paredes foi dono do meio-campo. Dibu é a segurança defensiva. O treinador Scaloni adapta a equipe às características dos atletas que tem, algo raro no futebol atual. E Messi é energia vital que une tudo e todos.
As gerações mudam. Os craques mudam. Os estádios mudam. Mas alguns confrontos parecem ter encontrado uma maneira de escapar do tempo. Quarenta anos depois, Argentina e Inglaterra voltaram a disputar uma partida decisiva de Copa do Mundo. O placar mudou. Os personagens mudaram. A história, nem tanto. A Argentina avança mais uma vez.












