A agricultura familiar ganhou novas ferramentas para melhorar a produção pecuária e avançar na regularização das propriedades. No Pará, um programa estadual combina identificação individual do rebanho, capacitação, assistência técnica e incentivo financeiro.
Além disso, a iniciativa busca apoiar produtores de menor escala na adoção de novas práticas de manejo, na regularização ambiental e na identificação dos animais. Com isso, a proposta também é aumentar o aproveitamento das áreas já utilizadas pela atividade.
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Rastreabilidade chega às pequenas propriedades
Mais de 2 mil propriedades já começaram a identificar individualmente os animais. Desse total, 66% possuem menos de 100 cabeças, segundo dados.
Para criadores com até 100 animais, o programa oferece gratuitamente a identificação individual. O benefício inclui os brincos eletrônicos, a contratação do operador responsável pelo procedimento e a aplicação dos dispositivos.
Na prática, a medida facilita o controle do rebanho e pode reduzir o custo de entrada no sistema de rastreabilidade bovina.
Um projeto-piloto citado na reportagem estimou uma economia média de aproximadamente R$ 7 mil por propriedade com a doação dos brincos eletrônicos.
Manejo pode aumentar a produtividade
No campo, a proposta vai além da identificação dos animais. As equipes também orientam os produtores sobre técnicas capazes de melhorar o aproveitamento das áreas utilizadas pela pecuária.
Entre as alternativas está o pastejo rotacionado. Nesse sistema, o produtor divide a pastagem em áreas e alterna o acesso dos animais, permitindo períodos de recuperação da vegetação.
Segundo João de Jesus Souza, representante da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará (Fetagri), o manejo pode elevar a capacidade produtiva de uma área que comporta uma ou duas cabeças por hectare para até oito animais por hectare, dependendo das condições da propriedade.
Por isso, a assistência técnica tem papel importante. Com um manejo mais eficiente, o produtor pode aproveitar melhor a área disponível e, ao mesmo tempo, reduzir a necessidade de abertura de novos espaços para ampliar a criação.
Capacitação alcança milhares de produtores
Mais de 3 mil agricultores e agricultoras familiares já participaram das capacitações promovidas pelo programa. Até agora, as atividades chegaram a 80 dos 144 municípios paraenses.
Durante os encontros, os participantes aprendem sobre identificação dos animais, manejo de pastagens, regularização ambiental e melhoria da produção.
Além disso, três Núcleos de Atendimento ao Produtor funcionam em Altamira, Novo Repartimento e São Félix do Xingu.
Até agosto, essas unidades registraram 1.635 atendimentos. Desse total, 602 envolveram serviços de regularização ambiental. As propriedades atendidas somavam 72.608 hectares e um rebanho estimado em 63.989 cabeças.
Incentivo pode chegar a R$ 20 mil
O programa também criou uma linha de apoio financeiro para estimular mudanças nas propriedades. Chamado de “cheque pecuária”, o benefício prevê R$ 20 mil para cada agricultor familiar, divididos em duas parcelas.
O produtor pode direcionar os recursos para ações de regularização ambiental, instalação de cercas para proteger áreas que precisam de recuperação e contratação de projetos de reflorestamento.
Por outro lado, quem já não possui pendências ambientais pode utilizar o dinheiro em medidas voltadas ao aumento da produtividade, como reforma de pastagens e implantação de sistemas de manejo rotacionado.
Ao todo, o governo estadual destinou R$ 34,952 milhões para a iniciativa. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade, porém, não informou quanto desse valor já chegou efetivamente às propriedades.
Produção familiar tem peso no setor
A participação dos pequenos produtores ganha relevância porque a produção familiar ocupa espaço importante na pecuária paraense.
Segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE citados na reportagem, o número de propriedades da agricultura familiar no estado passou de 195.985, em 2006, para 239.737, em 2017. O avanço chegou a 22% no período.
Além disso, cerca de 90% da produção de leite do Pará está concentrada em propriedades familiares, de acordo com dados da Secretaria de Estado da Agricultura Familiar.
Muitos desses estabelecimentos trabalham com produção de leite e criação de bezerros destinados à cadeia da carne. Assim, melhorias no manejo podem gerar efeitos em diferentes etapas da atividade.
Prazo para rastrear o rebanho vai até 2030
Outro ponto importante envolve o calendário de implantação da identificação individual. O prazo para a adoção obrigatória da rastreabilidade bovina foi adiado para 2030.
Com mais tempo para adequação, os produtores podem organizar a implantação do sistema de forma gradual. Ainda assim, a continuidade das ações de orientação será importante para evitar uma concentração da demanda nos últimos anos.
A partir de janeiro de 2027, a identificação eletrônica deverá ganhar uma nova função relacionada ao controle sanitário. A proposta prevê substituir a marcação tradicional das fêmeas vacinadas contra a brucelose pelo registro associado ao brinco eletrônico.
Produzir mais sem ampliar a área
Mais do que controlar a origem dos animais, o programa procura transformar a rastreabilidade em uma porta de entrada para outras melhorias dentro da propriedade.
Com assistência técnica, acesso a recursos financeiros e práticas adequadas de manejo, o produtor pode aumentar o aproveitamento das áreas existentes, recuperar espaços degradados e organizar melhor o rebanho.
Dessa forma, a produção sustentável também ganha uma dimensão econômica: produzir mais e melhor utilizando os recursos que a propriedade já possui.
No fim, a combinação entre tecnologia, orientação e incentivo financeiro pode facilitar a modernização da atividade e ampliar as oportunidades para os pequenos produtores dentro da cadeia pecuária.
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