Uma síndrome incomum em leitões chamou a atenção de veterinários europeus por provocar exoftalmia, quando os olhos ficam projetados para fora, além de estrabismo, alterações na pele e crescimento irregular. Os primeiros casos surgiram na Holanda e, posteriormente, pesquisadores identificaram sinais semelhantes em uma granja da Dinamarca.
As investigações detectaram um novo parvovírus suíno nos animais afetados. No entanto, os pesquisadores ainda não comprovaram que o agente seja o responsável pela síndrome. Por isso, as autoridades veterinárias continuam acompanhando os casos e investigando outros fatores que possam participar do quadro.
A situação ganhou atenção internacional depois que a Animal and Plant Health Agency (APHA), do Reino Unido, orientou veterinários a reconhecerem os sinais observados nos dois países.
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O alerta merece atenção porque alguns episódios apresentaram elevada ocorrência dentro das leitegadas. Segundo a APHA, os sinais chegaram a atingir até 80% dos animais em metade das leitegadas nos casos mais graves. Ainda assim, as mortes diretamente atribuídas ao quadro são consideradas pouco frequentes.
Olhos projetados estão entre os principais sinais
A exoftalmia bilateral aparece como um dos sinais mais característicos. Nesse quadro, os dois globos oculares ficam projetados para fora. Os veterinários também observaram estrabismo, vermelhidão generalizada da pele, enrugamento, perda de pelos e crescimento reduzido ou desigual.
Além disso, alguns animais apresentaram alterações respiratórias. A APHA relata que os casos ocorrem principalmente em suínos entre duas e dez semanas de idade, embora outros animais também possam apresentar sinais.
A síndrome em leitões também pode afetar o desempenho dos lotes. Os relatos europeus apontam crescimento irregular e formação de animais de menor qualidade na fase de terminação. Em alguns episódios, os veterinários ainda observaram problemas concomitantes, como diarreia próxima ao desmame.
Os surtos acompanhados pelas autoridades permaneceram ativos por períodos de aproximadamente três a seis meses, embora a duração tenha variado entre as propriedades.
Mais de 80 granjas holandesas relataram sinais
A investigação ganhou força em dezembro de 2024, quando duas propriedades comerciais da Holanda notificaram casos envolvendo leitões de uma a quatro semanas. Os animais apresentavam exoftalmia, estrabismo, vermelhidão da pele e perda de pelos.
Nos meses seguintes, outros produtores relataram sinais semelhantes. Um estudo publicado na revista científica Emerging Infectious Diseases informou que mais de 80 granjas holandesas haviam comunicado casos até agosto de 2025.
Diante do aumento dos registros, pesquisadores da Royal GD, da Universidade de Utrecht e de clínicas veterinárias passaram a investigar diferentes possibilidades.
As necropsias de 20 leitões provenientes de sete propriedades não revelaram uma alteração anatômica específica que explicasse o quadro. Na sequência, a equipe investigou causas nutricionais, toxicológicas e infecciosas, mas nenhuma apresentou uma explicação consistente.
Foi então que os cientistas ampliaram a análise para o material genético presente nos tecidos dos animais.
Novo parvovírus apareceu nos animais afetados
Os cientistas analisaram tecidos de 18 leitões doentes e quatro animais sem sinais clínicos. Nos animais afetados, a equipe recuperou genomas quase completos de um protoparvovírus e confirmou a presença do DNA viral por PCR.
As maiores quantidades de material genético apareceram no fígado e nos rins. Além disso, o vírus apresentou mais de 98% de identidade genética com um parvovírus anteriormente identificado em amostras de raposas.
Os pesquisadores também localizaram material viral dentro de células dos rins e do fígado. Em laboratório, conseguiram demonstrar a replicação do vírus em células suínas.
Esses resultados fortaleceram a associação entre o agente e os animais afetados. Ainda assim, os cientistas encontraram uma limitação importante.
Embora o material viral tenha sido detectado por PCR nos tecidos dos olhos e da pele, os pesquisadores não encontraram nesses locais o mesmo padrão de evidência de replicação observado no fígado e nos rins.
Por isso, os autores do estudo não afirmam que o vírus seja definitivamente a causa da síndrome. Outros mecanismos podem participar do desenvolvimento dos sinais clínicos, e essa relação ainda precisa ser esclarecida.
Dinamarca registra quadro semelhante
Em junho de 2026, pesquisadores da Universidade de Copenhague e de outras instituições dinamarquesas identificaram sinais semelhantes em uma granja com 920 matrizes.
Segundo o estudo preliminar, cerca de 1,5% a 2% dos leitões e animais recém-desmamados da propriedade apresentaram sinais compatíveis com a síndrome.
Os pesquisadores encaminharam seis leitões para necropsia e detectaram o parvovírus em amostras de fígado e rins. Além disso, a análise genética encontrou 99,9% de identidade entre os genomas dos vírus identificados nos suínos dinamarqueses e o agente encontrado no surto holandês.
O resultado mostra uma forte proximidade genética entre os dois episódios. Porém, ainda não esclarece como o vírus chegou às propriedades nem como ocorreu sua disseminação.
Raposas também entraram na investigação
A proximidade genética com vírus encontrados em raposas levou os pesquisadores a investigar a participação da fauna silvestre.
O agente identificado nos suínos apresenta relação genética com um protoparvovírus encontrado anteriormente em amostras de raposas. Na Dinamarca, os pesquisadores também detectaram o vírus em amostras de raposas locais.
Esse achado, porém, não prova transmissão entre raposas e suínos.
Até agora, os pesquisadores não determinaram quando ou como o vírus entrou nas populações de suínos da Holanda e da Dinamarca. Da mesma forma, ainda não está definido qual papel a fauna silvestre pode exercer na circulação do agente.
Assim, uma possível participação de animais silvestres continua como hipótese de investigação, e não como origem comprovada da síndrome.
Vacinas contra parvovirose suína não devem proteger contra o novo vírus
Os pesquisadores diferenciam o novo agente do parvovírus suíno tipo 1, conhecido como PPV1. Esse vírus circula há décadas e está associado principalmente a problemas reprodutivos.
Nos casos investigados na Holanda, as propriedades utilizavam vacinação rotineira contra PPV1. Como o novo agente apresenta diferenças genéticas, os pesquisadores consideram baixa a possibilidade de imunidade cruzada.
A APHA também informa que as vacinas comerciais utilizadas contra os parvovírus suínos endêmicos não são esperadas para proteger contra o novo agente.
Até o momento, não existe uma vacina específica ou um protocolo de controle direcionado à síndrome.
Não há indicação atual de risco para seres humanos
As evidências disponíveis não indicam risco zoonótico associado ao novo agente. A APHA também informa que não foram registrados problemas de saúde humana ou de segurança dos alimentos relacionados aos episódios investigados na Holanda e na Dinamarca.
Assim, o alerta atual tem foco principalmente veterinário e produtivo.
Para os profissionais que trabalham com suínos, a combinação de exoftalmia, estrabismo e alterações na pele merece atenção, especialmente quando vários animais apresentam os sinais ao mesmo tempo.
O que a suinocultura ainda precisa descobrir
A identificação do novo parvovírus representa um avanço na investigação, mas ainda deixa perguntas importantes em aberto.
Os pesquisadores precisam determinar como o vírus se transmite, qual é sua origem e qual impacto a infecção realmente provoca sobre a saúde e o desempenho dos animais.
Também falta esclarecer por que alguns animais desenvolvem sinais tão específicos e qual papel o agente exerce nesse processo.
Por enquanto, as autoridades europeias recomendam atenção aos sinais clínicos e investigação de casos suspeitos. A APHA, por exemplo, orienta veterinários britânicos a encaminharem situações compatíveis para avaliação.
No Brasil, as fontes científicas e oficiais não descrevem casos dessa síndrome. Ainda assim, o episódio europeu reforça a importância da vigilância veterinária diante de alterações incomuns em leitões, sobretudo quando vários animais de um mesmo lote apresentam sinais semelhantes.
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