Brasil e Estados Unidos deram nesta quarta-feira (30) um passo para tentar reorganizar uma relação comercial que atravessa meses de atrito. Os dois países decidiram criar um grupo de trabalho para discutir temas ligados a um possível acordo comercial, inclusive tarifas e outras barreiras que dificultam a entrada de produtos nos dois mercados.
Ainda não há um acordo desenhado, muito menos uma lista fechada de produtos que poderão ser beneficiados. O próximo passo virá de Washington: o governo estadunidense deve apresentar nas próximas semanas um documento propondo o alcance das conversas. Só a partir daí ficará mais claro o tamanho da negociação e quais setores podem entrar nela.
O acerto ocorreu em Milwaukee, nos Estados Unidos, durante uma reunião paralela ao encontro de ministros do Comércio do G20. Participaram os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, além do representante comercial americano, Jamieson Greer.
A reunião coloca uma negociação mais ampla no horizonte justamente quando empresas brasileiras enfrentam novas barreiras para vender aos Estados Unidos. Em julho, Washington aplicou sobretaxas que atingem parte dos produtos brasileiros. Dependendo da mercadoria, os adicionais chegam a 12,5%, 25% ou, quando duas medidas se acumulam, 37,5%.
O que pode entrar na mesa
O documento prometido pelos Estados Unidos deverá tratar de questões tarifárias e não tarifárias. A primeira parte é mais fácil de visualizar: são os impostos cobrados quando um produto atravessa a fronteira. Se uma tarifa cai, por exemplo, a mercadoria brasileira pode chegar ao mercado estadunidense pagando menos imposto de importação.
A segunda é mais ampla. Barreiras não tarifárias podem envolver regras técnicas, exigências sanitárias, padrões para produtos, procedimentos aduaneiros e outras condições que, mesmo sem aumentar diretamente o imposto, podem dificultar ou encarecer uma exportação.
É justamente aí que a negociação pode ficar mais delicada. A investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil colocou sob questionamento temas que vão além das tarifas, como comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e políticas ambientais.
O governo brasileiro contesta parte dessas acusações. Desde julho de 2025, segundo o MDIC, representantes dos dois países participaram de mais de 30 reuniões para discutir as diferenças comerciais.
O grupo criado agora não significa que Brasil e Estados Unidos já concordaram sobre esses pontos. Ele abre um espaço específico para descobrir onde há margem para acordo e onde permanecem as divergências.
Sobretaxas pesam sobre exportadores
O tamanho do problema aparece nos números. Pelos cálculos do MDIC, 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estão sujeitas às novas sobretaxas impostas pelas investigações da Seção 301.

Uma parcela equivalente a 16,5% das vendas brasileiras ao mercado estadunidense pode enfrentar adicional de 37,5%, resultado da sobreposição de duas medidas. Máquinas e equipamentos, madeira, móveis, calçados, confecções, gorduras e óleos aparecem entre os produtos atingidos.
Outros 24,2% das exportações estão sujeitos a tarifas setoriais aplicadas pelos Estados Unidos a diferentes países, com base em outra legislação comercial americana. Já 52,7% não são alcançados por essas sobretaxas específicas ou setoriais e continuam submetidos às tarifas ordinárias.
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A pressão já apareceu no comércio. Depois de atingirem US$ 40,4 bilhões (R$ 209,43 bilhões) em 2024, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram para US$ 37,7 bilhões (R$ 195,43 bilhões) em 2025. No primeiro semestre deste ano, caíram outros 13% na comparação anual, para US$ 17,4 bilhões (R$ 90,20 bilhões).
A relação, porém, está longe de ser pequena. Os Estados Unidos continuam entre os principais mercados dos produtos brasileiros e também vendem grandes volumes ao Brasil. Em agosto, por exemplo, o Brasil exportou US$ 3,19 bilhões (R$ 16,53 bilhões) ao mercado americano e importou pouco mais de US$ 4 bilhões (R$ 20,74 bilhões).
Negociação começa sem prazo para terminar
A aproximação desta quarta é mais um capítulo de uma conversa que ganhou força nos últimos meses. Os governos já mantinham contatos de alto nível sobre as disputas comerciais e, segundo o MDIC, o encontro em Milwaukee ocorreu após uma sequência de conversas entre autoridades dos dois países.
Agora vem a parte mais difícil. Primeiro, os Estados Unidos precisam apresentar o documento com os temas que pretendem negociar. Depois, Brasil e EUA terão de decidir quais pontos cabem no possível acordo e quais concessões cada lado aceita fazer.
Por enquanto, não há prazo para concluir as conversas nem garantia de que elas terminarão em um tratado. O que mudou nesta quarta-feira é que os dois governos passaram a discutir uma estrutura para tentar transformar meses de disputa tarifária em uma negociação comercial mais ampla.









