Você já imaginou uma língua que não fica na boca e, mesmo assim, distingue substâncias melhor que o paladar humano? Conheça a ideia por trás da chamada língua eletrônica, aparelho criado no Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da Universidade de São Paulo (USP).

Com tecnologia disruptiva, o dispositivo detecta os anticorpos do vírus H5N1, causador da gripe aviária, em apenas seis minutos. Formulada com ajuda da inteligência artificial, a língua biônica demonstrou 98,6% de precisão nos testes descritos na revista científica ACS Applied Nano Materials.

Como funciona a língua eletrônica?
O funcionamento do aparelho copia o modus operandi das papilas gustativas, que reconhecem sabores juntando diferentes sinais. No lugar dos receptores do paladar, quatro sensores medem propriedades elétricas da amostra e devolvem leituras complementares. Logo em seguida, a IA integrada no dispositivo cruza os dados e encontra o padrão deixado pelos anticorpos quando eles alteram a resposta elétrica dos detectores.

A tecnologia é considerada limpa, já que usa componentes de origem vegetal. A zeína, extraída do milho, a jacalina da jaca e a concanavalina do feijão-de-porco formam as superfícies sensíveis do aparelho, enquanto a sericina, proteína da seda, cobre as partículas de ouro. Segundo Osvaldo Novais de Oliveira Junior, professor do IFSC-USP e coordenador da pesquisa, a escolha dos materiais foi motivada por aspectos ambientais. O tempo de vida útil da língua eletrônica é curto, já que a unidade resiste a poucos usos e é descartada em seguida.

Quando se trata de sensibilidade, o coordenador da pesquisa garante que o aparelho enxerga sal diluído na água em quantidades menores do que qualquer boca perceberia. Ainda de acordo com o professor da USP, a língua eletrônica é muito superior na detecção de alguns sabores.

O salto para o uso real do aparelho, no entanto, ainda não aconteceu. Segundo o docente da USP, o problema é a escala, já que a universidade possui apenas algumas dezenas de aparelhos. Além disso, os experimentos recorreram a anticorpos comerciais e a soro bovino enriquecido durante os testes, sem usar o sangue de pessoas.
A rápida detecção da língua eletrônica, porém, é vista como um diferencial contra a gripe aviária, que obriga o abate de milhões de animais todos os anos.









