MENU

Idec: cancelamento de cartões Amex pelo Santander viola direitos

walmir-banner01
Shadow
Santander havia deixado de comercializar cartões Amex em maioFoto editada com IA

Crescem as reclamações de clientes do Santander que estão tendo seus cartões de crédito American Express cancelados com pouquíssimas explicações sobre o motivo. Na avaliação da consultora do Idec (Instituto de Defesa de Consumidores) Ione Amorim, a justificativa dada até o momento pela instituição financeira não é suficiente e sugere uma violação ao CDC (Código de Defesa do Consumidor).

À coluna, em nota, o Santander informou “que realiza, periodicamente, revisões em sua base de cartões, conforme previsto em contrato e alinhado às políticas de relacionamento e aos critérios de elegibilidade dos produtos. Neste contexto, clientes American Express que não atendem mais aos critérios de elegibilidade para manutenção do cartão estão sendo comunicados sobre o cancelamento de seus produtos. Os demais clientes seguem utilizando seus cartões normalmente e contam com o suporte dos canais oficiais do banco”.

Para Ione, “está havendo um descumprimento no acesso à informação e na oferta de uma alternativa”.

“Se fosse um produto que você cancela e não tem desdobramentos dentro da sua própria natureza operacional… mas não é o caso. Não é simplesmente cinco dias, vai lá e cancela. E quem tem uma pontuação significativa vai para onde? Quem tem a questão do seguro [viagem], que está com uma passagem? Vai para onde o direito desse consumidor?”

Os clientes afetados começaram a receber comunicados do banco nos últimos dias falando que seus cartões serão bloqueados definitivamente no prazo de cinco dias úteis. A consultora do Idec entende que o prazo é pouco razoável.

“Esse prazo, realmente, mostra uma certa urgência do banco em fazer esse encerramento. Talvez nem todos os consumidores tiveram acesso a isso [e-mail]. Alguns vão ser comunicados da pior forma, na hora de usar o cartão. Isso já é extremamente ruim, até para a imagem do banco.”

A coluna perguntou ao Santander o que acontece, por exemplo, com clientes que já estejam em viagem, mas não obteve resposta.

“O banco não pode só comunicar que vai cancelar. Ele tem que cancelar e constituir mecanismos para garantir que os serviços que estavam atrelados a esse produto que está sendo descontinuado serão atendidos dentro de alguma outra proposta”, acrescenta Ione.

O que fazer

O primeiro passo, orienta o Idec, é tentar obter informações e uma alternativa para o cancelamento junto ao banco, até mesmo com a ouvidoria da instituição.

Caso continue insatisfeito com as respostas, o cliente pode recorrer a órgãos como Consumidor.gov, Procon ou Banco Central.

Ione ressalta que o banco tem todo o direito de descontinuar um produto, mas que o consumidor não pode ser prejudicado com um rompimento contratual unilateral e sumário.

“É preciso garantir, independentemente de quais sejam as políticas internas do Santander ou do Santander com a Amex, os serviços que esses consumidores têm atrelado a esse produto.”

As reclamações

Nas últimas horas, novas queixas foram publicadas no site Reclame Aqui. Em um dos casos, um cliente do Santander diz fazer parte da instituição desde 2008 e conta que utilizava o cartão Amex desde o lançamento, em 2022.

“Costumo pagar todas as faturas em dia, com uma movimentação de um valor considerável. Não faz sentido o e-mail que recebi do Santander me indicando que não estou no perfil do cartão Amex, por isso estão cancelando. Tentei contato no atendimento para reverter a situação, porém, sem sucesso”, escreveu.

Outra cliente também critica a forma genérica como o banco a comunicou sobre o bloqueio do cartão. “Não considero suficiente simplesmente informar ‘diretrizes internas’ sem esclarecer qual é o fundamento concreto da decisão, principalmente quando o próprio SAC direciona para uma cláusula contratual que apresenta hipóteses específicas de cancelamento”.

Amex no Brasil

O episódio ocorre em um momento de retração da American Express no mercado brasileiro. Depois de ter afrouxado a aprovação do American Express The Platinum Card em 2024, o Santander anunciou em maio deste ano a suspensão das emissões de novos cartões. Na ocasião, os clientes que já tinham os produtos ativos não foram incluídos na mudança.

A coluna já abordou a perda de prestígio da Amex no país, diante da falta de benefícios suficientemente atrativos para o público de alta renda e do avanço de concorrentes que passaram a oferecer propostas mais competitivas.

A relação da American Express com o Brasil também mudou de forma significativa ao longo das últimas duas décadas. Em 2006, o Bradesco comprou as operações brasileiras da companhia e passou a emitir os cartões da bandeira, algo que até então ela própria fazia — assim como continua fazendo em mais de 50 países.

A mudança marcou o abandono de um modelo em que a própria American Express controlava diretamente boa parte de sua operação brasileira. Desde então, a força da marca passou a depender da estratégia dos bancos parceiros — justamente instituições que também mantinham negócios relevantes com Visa e Mastercard. A Amex deixou, assim, de disputar o consumidor apenas com outras bandeiras e passou a disputar espaço dentro do próprio banco que emitia seus cartões.

Na avaliação deste colunista, há dois caminhos possíveis para os cartões Amex no Brasil. O primeiro é um reposicionamento, com acesso mais restrito, benefícios mais relevantes e uma tentativa de reconquistar o consumidor de alta renda. O segundo seria uma redução ainda maior de sua presença no mercado.

Para recuperar protagonismo, a American Express teria um longo caminho pela frente. E a forma como o Santander está conduzindo o cancelamento desses cartões contribui para deteriorar ainda mais a imagem da marca no país, justamente entre consumidores que já tinham uma relação estabelecida com ela.

PUBLICIDADE