Cuidar das ruas vai muito além da simples manutenção física: trata-se de qualificar a experiência urbana, promovendo caminhabilidade, segurança e bem-estar. Em cidades como São Paulo, uma realidade recorrente é a presença de calçadas degradadas — com pavimentação irregular, fissuras e interferências causadas por árvores mal implantadas ou manejadas inadequadamente.
Um dos principais fatores que contribuem para o desnível das calçadas e para a dificuldade de deslocamento de pedestres é a forma como são executados os canteiros de árvores. Uma das principais soluções para esse problema seria a criação de golas de árvores. O termo “gola” refere-se à área imediatamente ao redor da base do tronco, região crítica para o desenvolvimento radicular e para a troca de água e gases entre o solo e a atmosfera.
Do ponto de vista técnico, as golas desempenham papel fundamental na infraestrutura verde urbana. Quando corretamente dimensionadas e executadas, garantem permeabilidade do solo, favorecem a infiltração de águas pluviais, reduzem o escoamento superficial e contribuem para a mitigação de ilhas de calor. Além disso, permitem o crescimento saudável do sistema radicular, evitando que as raízes busquem espaço sob o pavimento e causem deformações.
As boas práticas de projeto recomendam que:
- O canteiro tenha dimensão mínima de 1,0 m x 1,0 m, podendo ser maior conforme o porte da espécie arbórea;
- O solo seja descompactado e com boa capacidade de drenagem, preferencialmente com substrato adequado ao desenvolvimento vegetal;
- Evite-se o uso de bordas rígidas elevadas (como contenções de concreto altas), que prejudicam a acessibilidade e o escoamento da água;
- Sejam utilizados materiais permeáveis ou semipermeáveis, como grelhas metálicas, pedriscos ou forrações vegetais, que conciliem proteção da árvore e circulação de pedestres;
- Haja compatibilização com normas de acessibilidade, como a ABNT NBR 9050, garantindo superfície regular, estável e antiderrapante no entorno.
A ausência desses cuidados resulta em conflitos entre arborização e mobilidade urbana, impactando diretamente a segurança — especialmente de idosos, crianças e pessoas com deficiência. Portanto, o planejamento adequado das golas de árvores deve ser entendido como parte essencial do desenho urbano, integrando paisagismo, engenharia e acessibilidade.










