Pesquisadores relataram que conseguiram transformar migalhas de pão em hidrogênio, um tipo de combustível, por meio de um processo que combina bactérias e um metal catalisador.
O estudo, publicado na revista Nature Chemistry, mostra que o processo usa restos de alimentos para gerar energia e pode substituir métodos tradicionais baseados em combustíveis fósseis, com potencial de reduzir significativamente as emissões de gases do efeito estufa.
A técnica une microrganismos vivos e um metal chamado paládio. As bactérias, como a Escherichia coli (E. coli), produzem hidrogênio naturalmente quando ficam sem oxigênio. O gás, ao entrar em contato com o metal, passa por uma reação química chamada hidrogenação, que é amplamente usada na indústria. O professor responsável comentou o método em entrevista à Live Science.
No experimento, os cientistas cultivaram bactérias em um ambiente controlado e adicionaram o catalisador. O resultado foi uma reação eficiente, com até 94% de aproveitamento na produção de compostos químicos.
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De lixo à fonte de energia
Para tornar o processo mais sustentável, os pesquisadores substituíram o açúcar puro por restos de pão. As migalhas foram quebradas por enzimas até virar glicose, que serviu de “alimento” para as bactérias. A partir daí, elas produziram hidrogênio, transformando o resíduo em combustível.
Segundo o estudo, esse tipo de reaproveitamento é relevante porque o desperdício de pão é alto. Apenas no Reino Unido, cerca de 900 mil toneladas são descartadas por ano, muitas vezes em aterros ou incineração, o que gera emissões de carbono.
A hidrogenação é uma reação essencial em diversos setores, como produção de alimentos, plásticos e medicamentos. Hoje, a maior parte do hidrogênio usado vem de combustíveis fósseis, por meio de um processo poluente que pode emitir entre 15 e 20 quilos de dióxido de carbono para cada quilo de hidrogênio produzido.
Com a nova técnica, esse cenário pode mudar. Os testes indicam que o uso de hidrogênio gerado por bactérias pode reduzir as emissões em até três vezes. Quando o processo utiliza resíduos de pão, o impacto ambiental pode ser ainda menor, chegando a um resultado considerado “carbono negativo”, ou seja, retirando mais carbono do que emite.
Outro avanço apontado no estudo é que as bactérias podem ser adaptadas para produzir não só o hidrogênio, mas também as substâncias necessárias para a reação química. Isso significa que todo o processo pode acontecer dentro de uma única célula, simplificando a produção.
Os cientistas também observaram que bactérias comuns de laboratório tiveram desempenho igual ou até superior a versões geneticamente modificadas na produção de hidrogênio, indicando que o método pode ser mais simples do que se imaginava.
Próximos passos
Apesar dos resultados, os próprios autores destacam que a técnica ainda não é tão eficiente quanto os processos industriais atuais. O objetivo agora é aumentar a escala, melhorar o rendimento e adaptar o método para diferentes tipos de resíduos.
A pesquisa também aponta que sistemas híbridos, que combinam química e biologia, podem ser uma alternativa para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e tornar a indústria mais sustentável.








