A extinção de uma espécie é um dos maiores desafios enfrentados pela biodiversidade mundial. Esse quadro se torna ainda mais crítico em países que possuem grande diversidade biológica, como o Brasil.
Diante desse cenário, surgem questionamentos sobre como a ciência identifica quando uma espécie está prestes a desaparecer e como é possível afirmar a certeza desse fato.
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Para esclarecer essas questões, o Portal iG entrevistou a bióloga Amanda Scardini Leon Isaac, que explica como os cientistas chegam a essas conclusões, os critérios utilizados para classificar o risco de desaparecimento e os fatores que contribuem para esse fenômeno.
O que caracteriza uma espécie em extinção?

A especialista esclarece que, do ponto de vista científico, uma espécie é considerada extinta quando sua população se reduz a níveis tão críticos que a manutenção de sua sobrevivência a longo prazo se torna impossível.
“Isso envolve não apenas a redução no número de indivíduos, mas também a perda de diversidade genética, a fragmentação dos habitats e a incapacidade de manter populações reprodutivas estáveis”, afirma.
Ela também explica que, na prática, a extinção se trata de uma espécie com uma alta probabilidade de desaparecimento na natureza, caso as condições atuais persistam.
Como são definidos os riscos?
De acordo com a bióloga, a principal referência mundial para avaliar o risco de extinção é a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
“Ela utiliza critérios quantitativos bem definidos, como tamanho e tendência populacional, área de distribuição geográfica, grau de fragmentação do habitat e impactos de ameaças conhecidas, como desmatamento ou exploração direta”.
Scardini explica que, com base nessas informações, as espécies são classificadas em categorias de risco: “Uma espécie vulnerável já apresenta declínio ou restrições que podem levá-la à extinção no médio prazo. A categoria em perigo indica um risco mais elevado e iminente. Já as espécies criticamente em perigo estão em uma situação extremamente grave, com chances muito altas de extinção em um futuro próximo”.
É possível afirmar com certeza que uma espécie foi extinta?
Questionada sobre a possibilidade de afirmar com certeza absoluta que uma espécie foi extinta e como os cientistas lidam com essa margem de dúvida, Amanda Scardini responde que a extinção é uma das afirmações mais difíceis de fazer na biologia.
“Raramente se pode falar em certeza absoluta, especialmente para espécies pouco estudadas ou que vivem em ambientes de difícil acesso. Por isso, os cientistas costumam adotar critérios conservadores, exigindo longos períodos sem registros confiáveis, mesmo após buscas extensivas e direcionadas”.
Ela acrescenta que, em muitos casos, a espécie é classificada como “possivelmente extinta” até que surjam evidências mais conclusivas. Essa margem de dúvida é importante, pois já houveram exemplos de espécies consideradas extintas que foram redescobertas anos ou até décadas depois.
Principais fatores que levam à extinção no Brasil

Com relação ao cenário brasileiro, a bióloga aponta que, o principal fator que contribui para a extinção de espécies no país é a perda e fragmentação de habitats, especialmente devido ao desmatamento, à expansão agropecuária, à mineração e à urbanização.
Ela acrescenta que outros fatores que contribuem negativamente incluem a caça e a pesca predatórias, a introdução de espécies exóticas invasoras, a poluição e, cada vez mais, as mudanças climáticas.
Scardini também menciona alguns exemplos concretos de espécies ameaçadas no território brasileiro. Entre os casos mais conhecidos, estão o mico-leão-dourado, o tamanduá-bandeira, a onça-pintada em algumas regiões, o papagaio-de-peito-roxo e várias espécies de anfíbios, que são extremamente sensíveis às alterações ambientais.
“O Brasil, por ser um país megadiverso, também concentra um grande número de espécies ameaçadas que ainda são pouco conhecidas do público”, afirma.
O que acontece quando uma espécie é considerada oficialmente extinta?

Quando uma espécie é oficialmente considerada extinta, significa que não existem mais indivíduos vivos, nem na natureza e nem em cativeiro.
“Na prática, isso representa uma perda irreversível de patrimônio biológico, genético e ecológico”, afirma a especialista.
Além de causar desequilíbrios nas cadeias alimentares e ecossistemas, a extinção de uma espécie também serve como um alerta sobre falhas nos esforços de conservação.
A bióloga conclui, afirmando que a extinção “indica falhas nos esforços de conservação e serve como base para revisar políticas ambientais, estratégias de manejo e prioridades de preservação, buscando evitar que o mesmo aconteça com outras espécies”.
Espécies ameaçadas de extinção no Brasil
Dados do Ministério do Meio Ambiente indicam que 1.254 espécies e subespécies brasileiras estão atualmente ameaçadas de extinção, conforme as Portarias MMA nº 148/2022 e nº 354/2023. O levantamento inclui 59 anfíbios, 257 aves, 102 mamíferos, 71 répteis, 393 peixes, tanto continentais quanto marinhos, e 372 invertebrados terrestres e aquáticos, incluindo espécies marinhas.











